sábado, abril 26, 2008

Mapa da Pobreza em Porto Alegre - 11 (Morro Santana)

Continuo com os mapas das vilas na periferia leste de Porto Alegre, junto às áreas rurais e os municípios de Alvorada e Viamão. Agora, ao sul da Vila Mário Quintana e da av. Prótásio Alves, vou apresentar as encostas do Morro Santana, o maior morro do município de Porto Alegre.


Na encosta norte do morro, está a Vila Protásio Alves, próxima à avenida de mesmo nome e do complexo Vila Mário Quintana, exposto anteriormente. Parece parcialmente urbanizada.


Rodando em um sentido anti-horário, encontra-se logo um conjunto de vilinhas dispersas, ao redor de uma região de COABs (pelo menos na aperência).


Mais a oeste, as habitações irregulares percorrem o entorno do Beco Souza Costa, até se concentrarem na Vila Colina do Prado, que parece ser a maior favela do morro.



Ao sul, ao redor do que parece ser um centro de abastecimento de energia elétrica, está a Vila Grécia.


No extremo sul do morro, próxima à avenida Bento Gonçalves e ao Campus do Vale da UFRGS, está a Vila Agrovet.


Do outro lado do morro, a leste, inicia-se o município de Viamão, com moradias humildes, mas regulares.

Nesse ponto do mapa, há uma dispersão dos complexos de pobreza em Porto Alegre. Ao sul do morro Santana, a pobreza periférica continua na Lomba do Pinheiro. Mas, indo em direção ao núcleo da cidade, encontram-se outros três importantes centros de vilas. À noroeste, estão os becos da Vila Jardim (próximos do Parque Germânia). Ao oeste, está a vila Bom Jesus. Ao sudoeste, está o morro da Cruz e o complexo Partenon. A partir daqui, ficará mais difícil seguir alguma trajetória lógica para mostrar os mapas dessas vilas.

quinta-feira, abril 24, 2008

Capital Humano e Desigualdades de Gênero nos Países

Dentre os estudos empíricos que buscam explicar as relações de desigualdade e de pobreza sobre determinados grupos demográficos, cabe destacar o trabalho de Dollar & Gatti (1999), do Banco Mundial. Os autores procuraram estudar as desigualdades econômicas por gênero, partindo da observação empírica de que, nos países mais pobres, as mulheres recebem menos investimento no seu capital humano do que os homens. Foram formuladas três hipóteses teóricas para procurar justificar esse fato:

a) O impacto da educação feminina sobre o bem-estar econômico das famílias e sobre o crescimento macroeconômico é inferior ao da educação masculina nos países em desenvolvimento, de modo que essa situação de desigualdade por gênero ao acesso a investimentos em capital humano é economicamente eficiente;

b) As desigualdades de gêneros nos diferentes países representam preferências culturais e religiosas de seus indivíduos residentes, que valorizam mais o conhecimento e o trabalho masculino do que o feminino;

c) Os menores investimentos no capital humano feminino representam falhas de mercado, que tendem a se reduzir conforme a economia do país cresce.

Essas três hipóteses apresentam importantes implicações em termos de políticas públicas. Se a desigualdade de investimentos no capital humano entre homens e mulheres é uma decisão econômica eficiente, qualquer política que altere essa situação será ineficiente. Se a desigualdade representa preferências culturais pela população, as políticas que forem de encontro a essas preferências reduzirão o bem-estar dos indivíduos. Porém, se a desigualdade meramente refletir conseqüências de falhas de mercado, nesse caso políticas de incentivo ao investimento no capital humano tornam-se não apenas desejáveis, mas também necessárias para o desenvolvimento econômico.

As evidências empíricas encontradas pelos autores apontam que o capital humano feminino é importante para o crescimento macroeconômico dos países, e, portanto, é um investimento economicamente eficiente. Por outro lado, as preferências culturais e religiosas são fundamentalmente importantes para explicar a desigualdade de gêneros, sendo, por exemplo, mais importantes em países muçulmanos e hindus do que em países cristãos protestantes. Por fim, o crescimento econômico contribui para reduzir a desigualdade de gêneros, sobretudo em países de nível de desenvolvimento econômico mediano. Isso indica que falhas de mercado podem ser importantes para determinar a desigualdade de gêneros. Contudo, os autores ressaltam que o seu estudo não permite que se tome conclusões a respeito de, mais especificamente quais falhas de mercado, no sentido microeconomômico do termo, causam essas desigualdades. Segundo Dollar & Gatti (1999, pg. 21):

“ … there is strong and consistent evidence that increases in per capita income lead to improvements in different measures of gender equality. To answer the question in our subtitle, apparently good times are good for women. The implication of this finding is not that growth is all that is needed to eliminate gender inequality. The findings on religious variables, regional effects, and civil liberties suggest that there is considerable scope for direct action on gender issues. However, it is important to know that the country-wide policies that support rapid growth are also indirectly contributing to gender equality.”

segunda-feira, abril 21, 2008

Encontro de Economia Keynesiana - Relato

Hoje, às 6 da manhã, voltei do Encontro de Economia Keynesiana, que ocorreu na Unicamp. Como foi a minha primeira apresentação de trabalho na pós-graduação, considero que foi uma experiência muito positiva.

Campinas é uma cidade praticamente de primeiro mundo. Do trajeto entre a rodoviária e a Unicamp (localizada no distrito de Barão Geraldo, praticamente uma sub-cidade dentro do município), não vi nenhum sinal de pobreza, pelo contrário. Casarões se misturavam a enormes prédios residenciais e a estabelecimentos comerciais, sem falar das inúmeras construções de novos empreendimentos imobiliários. E a paisagem se misturava a fazendas com plantações, nos terrenos próximos à rodovia, ainda não urbanizados. A Unicamp, por outro lado, é a universidade mais bucólica que eu já vi. Consiste em uma série de pequenas casas e prédios baixos espalhados por um grande campus. A população de estudantes não chega a formar multidões, tal como acontece no campus central da UFRGS, por exemplo. Além disso, existem muitas obras e construções de novos prédios dentro do campus, mas o espaço físico não-utilizado é abundante.

O hotel em que pousamos chamava-se "Casa do Professor Visitante", e fica no meio do campus. É um 3 estrelas muito confortável e limpo, e com restaurante. Uma estadia bastante agradável, enfim.

A organização do evento deixou a desejar em seu primeiro dia, devo ressaltar. Cheguei no hotel às 6 da manhã de quarta-feira, e tive que esperar até as 10 horas para conseguir um quarto, mesmo tendo reservado a muito tempo. Felizmente, consegui rachar uma suíte com outros convidados, e não tivemos novos problemas. E, além disso, não encontrei nenhuma referência no Instituto de Economia (IE) da Unicamp sobre o encontro até ele iniciar, no final da tarde.

Apresentei meu trabalho, uma estimação da lei de Thirlwall para a América Latina e o Caribe utilizando dados em painel, na quinta-feira pela amanhã. Confesso que acho que não agradei. Por estar na presença de pessoas totalmente desconhecidas, e por trabalhar com o tema a pouco tempo, fiquei nervoso na apresentação, e senti que poderia ter explicado melhor algumas partes. Por outro lado, ressaltei mais a parte empírica do que a parte teórica do meu trabalho, o que pareceu incomodar parte do público (professores e alunos da Unicamp, em grande maioria). Os cerca de 10 outros trabalhos que assisti em minha sessão procuraram mais discutir os pressupostos e as conseqüências da restrição na balança de pagamentos para o crescimento econômico do que rodar testes econométricos e discutir as conclusões mais quantitativas. Ou seja, senti um "viés cedeplariano" na minha apresentação.

Tive uma overdose de "lei de Thirwall" nesses três dias de encontro. Contei, além do meu trabalho, umas 10 apresentações sobre o tema, incluindo discussões teóricas, estimações empíricas, revisões bibliográficas, e decomposições de todos os tipos. Destaco para os trabalhos dos orientandos do Gilberto Tadeu Lima (USP), que estão procurando decompor os efeitos dessa teoria para cada item da pauta de importações e de exportações da economia brasileira.

As "atrações especiais", em seções extraordinárias, foram igualmente satisfatórias. O prof. Davidson (New School-US) explicou os principais axiomas da teoria pós-keynesiana, no primeiro dia. No segundo dia, tivemos Philip Arestis (Cambridge-UK), John McCombie (Cambridge-UK), Dominique Plihon (Paris-FRA), Edwin Le Heron (Dijón-FRA) discutindo os rumos atuais da teoria econômica pós-keynesiana. O Cardim de Carvalho (UFRJ) encerrou a noite com um "show de humor", graças ao seu carisma. No terceiro dia, o mexicano Júlio Lopez e o argentino Roberto Frenkel discutiram alternativas de políticas macroeconômicas keynesianas para a América Latina.

Os alunos da Unicamp, graduação e pós-graduação, sem mostraram presentes e interessados nas apresentações, seja dos trabalhos, seja das seções extraordinárias. Inclusive, eles não correspondem nem um pouco ao rótulo que recebem dos estudantes de outros centros, algo como de "xiitas heterodoxos", ou de "bixos-grilos". Pelo contrário, eles pareciam bem dedicados aos estudos e ao aprendizado, sem distinção de ideologia. E, além de tudo, a proporção feminina do curso de economia de lá era plenamente favorável, tanto em termos quantitativos, como em termos qualitativos.

Por fim, mesmo gostando da experiência do encontro, noto as limitações da teoria pós-keynesiana. Principalmente, a circularidade dos temas em discussão. Somando as apresentações sobre a lei de Thirlwall (como a minha), não-neutralidade da moeda e especulação financeira, isso cobriria mais de 80% de todos os trabalhos apresentados. Ou seja, mesmo sendo simpatizante, não me defino como um pós-keynesiano, e tampouco quis me filiar à associação.

domingo, abril 13, 2008

Mapa da Pobreza em Porto Alegre - 10 (Vila Mário Quintana)

Prosseguindo com o mapa da pobreza de Porto Alegre, agora apresento as vilas localizadas no bairro Mário Quintana, na região extremo-leste da cidade (após a av. Manoel Elias, até a fronteira com Alvorada). Essa é uma das principais regiõe de favelas da cidade.


Partindo em uma direção norte-sul, a região começa no COAB Rubem Berta (no bairro não-oficial do Jardim Leopoldina). Nessa parte do bairro, as vilas encontram-se juntas aos prédios de residências populares. Só consegui o nome de uma delas, a "Recanto da Lagoa", mesmo não encontrando nenhuma lagoa por ali.


A leste, próxima à fronteira com Alvorada, está o loteamento Timbaúva (também um bairro não-oficial). Esse loteamento consiste em uma parte composta por casas populares planejadas, e duas partes mais favelizadas. A parte planejada do loteamento está em expansão, recebendo antigos moradores das vilas removidas de dentro da cidade.


Ao sul do COAB Rubem Berta, encontram-se um aglomerado de vilas maiores:


À sudoeste, próximo à av. Manoel Elias e à FAPA, está o complexo Chácara da Fumaça. Quando eu fiz o vestibular para a Economia-UFRGS no prédio da FAPA, pude ver a entrada da vila em uma rua de terra cruzando a Manuel Elias. Era visível a pobreza da região em diversos aspectos: casas irregulares sem reboco, trânsito de carroças carregando lixo, grande quantidade de crianças descalças perambulando pelas ruas.


A leste da Chácara da Fumaça, está a Vila Safira, a maior favela da região. Essa vila parece ser bastante irregular, sendo mais pobre em determinadas ruas do que em outras. Além disso, as suas ruas parecem mais bem definidas do que nas vilas anteriores.


Ao sul, a Vila Safira acaba em uma rua que vai dar na Av. Protásio Alves, próxima ao Campus do Vale (UFRGS) e ao Morro Santana.

O Ataque do Velho Nazista

Mineiros têm o hábito de puxar assunto com desconhecidos em lugares públicos. Isso acontece na rua, em filas de bancos, nos caixas de supermercado, nas paradas de ônibus, etc. Até ontem, sempre me deparei com esse hábito com certo espanto, associado a uma natural introversão sulista, mas nunca me incomodei pessoalmente com isso.

Porém, ontem, às 8 da manhã, enquanto um colega de mestrado e eu tomávamos café da manã em uma padaria do centro da cidade, fomos abordados por um senhor de 62 anos de idade. O cara, sem ser perguntado, fez um discurso pró-nazista (tipo, "Aldoph Hitler foi o maior homem do século XX" e "Pessoas improdutivas devem ser eliminadas"), sme se importar com nosso constrangimento explícito e com os olhares de desaprovação das garçonetes mestiças da padaria.

Em um ano e três meses que vivo em BH, esse, de longe, foi o fato mais sem-noção que presenciei (esqueçam o vendedor de glicose e o enxame de cupins).

quinta-feira, abril 10, 2008

Encontro Internacional de Economia Keynesiana na Unicamp

Com muita satisfação, informo que meu trabalho para a disciplina Tópicos Especiais em Econometria - Dados em Painel, "Crescimento Econômico e Restrições na Balança de Pagamentos - Estimação do Modelo de Thirlwall para a América Latina e Caribe utilizando Técnicas para Dados em Painel" foi aceito para o Encontro Internacional de Economia Keynesiana, a ser realizado em Campinas, na semana que vem.

Basicamente, meu trabalho consiste em uma parte bibliográfica, e uma parte empírica. Na revisão bibliográfica, abordo interpretações de autores de diferentes linhas de pensamento sobre o papel do setor externo na macroeconomia dos países latino-americanos, englobando o período da Substituição de Importações, a década de 80, o Consenso de Washington e suas principais críticas. Por questões pessoais, escolhi as críticas ao Consenso de Washington realizadas por autores mais moderados metodologicamente.

Na parte empírica do trabalho, desenvolvi o modelo de Thirlwall, tal como no artigo de 1994 de Anthony Thirlwall e John Mc Combie. Em seguida, estimei o modelo cruzando dados de três fontes distintas (FMI, ONU e CEPAL), utilizando três modelos econométricos alternativos (POLS, Primeira Diferenciação e Efeitos Fixos). O POLS (pooled ordinary linear squares), ou Mínimos Quadrados Empilhados, em resumo, lida com o painel considerando cada indivíduo (país, no caso do meu trabalho) em cada ponto no tempo como uma observação distinta. Os dois outros modelos apresentam técnicas mais refinadas para controlar os fatores individuais ao longo do tempo, seja considerando apenas as variações temporais (Primeira Diferenciação), seja controlando pelo comportamento médio dos parâmetros de cada indivíduo (Efeitos Fixos). Além disso, minha base de dados foi bastante grande, incluindo todas as nações independentes da América Latina e do Caribe para o período de 1980 até 2005, com as exceções de Cuba e Barbados (sem dados disponíveis), e de S. Vicente e Granadinas, Haiti, Suriname e Granada (com evidentes erros de mensuração).

Consegui conclusões muito interessantes no trabalho. Os dois modelos mais refinados apresentaram uma ajuste aos dados mais favorável do que o POLS, mais utilizado pela bibliografia sobre o modelo de Thirlwall. A taxa de crescimento média compatível com equilíbrio comercial na região é de aproximadamente 3% ao ano. A abertura econômica nos anos 90 não levou a um aumento na propensão a importar nos países, mas sim a propensão a exportar, ao contrário do que muitos autores temiam. Contudo, as importações seguiram uma trajetória crescente de maneira autônoma ao longo do período estudado para a região como um todo.

Uma primeira crítica ao meu trabalho já foi realizada (ou antecipada) por um professor do Cedeplar, em aula. O modelo de Thirlwall, apesar de prever crescimento econômico puxado pela demanda (mais especificamente, demanda externa por exportações), assume que a moeda é neutra no longo prazo. Isso afasta essa teoria da corrente pós-keynesiana e a aproxima de um certo "neokaldorianismo", mais próxima da síntese neoclássica (ou velhos keynesianos).

Mas não me preocupo em nada com esse tipo de crítica. Meu objetivo acadêmico é apenas tentar compreender e explicar o mundo, além de fazer trabalhos empíricos, e não tentar me encaixar em alguma determinada escola de pensamento.

terça-feira, abril 08, 2008

O Desemprego para os Velhos Keynesianos, Novos Keynesianos e Pós-Keynesianos

Nesses últimos dias, li um artigo interessante do Paul Davidson (University of Tennesse at Knoxville), que procura diferenciar a noção de desemprego involuntário nas três principais escolas da macroeconomia que se inspiraram na teoria de Keynes, desenvolvida na década de 30.

Por um lado, os velhos keynesianos (ou síntese neoclássica da macroeconomia keynesiana, ou neokeynesianos), assim como os novos-keynesianos, aceitam alguns dos pressupostos keynesianos de presença de desemprego involuntário e de ação positiva da demanda agregada sobre a produção. Os mecanismos que estão por trás desses fatores, em ambos os casos, no entanto, partem das noções neoclássicas de market-clearing. Assim, haveria um ajustamento nominal imperfeito de preços e de salários na economia frente a choques exógenos de demanda, fazendo com que o ajuste do mercado de trabalho ocorresse via demissões, e não ajustes salariais.

Para os velhos keynesianos, a rigidez nominal seria resultado de um problema de ajuste de tempo físico entre o choque de demanda, a percepção dos empresários e a decisão e a ação de ajustar os preços.

Para os novos keynesianos, adeptos da teoria das expectativas racionais, o problema seria conseqüência da própria organização industrial dos mercados. Haveriam incentivos, como a existência custos de menu e salários-eficiência, para que os produtores escolhessem, frente a choques exógenos de demanda, ajustar o volume de produção do que os preços, com resultados macroeconômicos, no agregado.

Por outro lado, os pós-keynesianos, considerados mais fiéis aos postulados da Teoria Geral de Keynes, argumentam que o problema da rigidez nominal não é um problema propriamente keynesiano, mas foi desenvolvido por Alfred Marshall, como um caso especial de sua teoria do market-clearing. O desemprego involuntário seria conseqüência, na verdade, da elasticidade nula de produção dos ativos líquidos, em comparação com os bens físicos. Segundo Keynes, a presença de incerteza não-ergótica faz com que os agentes econômicos mantenham uma preferência pela liquidez positiva, isto é, mantenham parte de sua riqueza na forma de dinheiro ou ativos financeiros de alta liquidez (os pós-keynesianos contemporâneos associam esses ativos à especulação finacneira). Porém, como os mercados financeiros não são trabalho-intensivos, os recursos dirigidos para eles acabam deixando de empregar trabalhadores na produção de bens e de serviços. Por isso, a simples alocação de recursos na economia (isto é, o consumo) não seria capaz de manter o pleno-emprego, de modo que o volume total de emprego seria determinado pelas decisões das empresas de investir, e isso dependeria de expectativas exógenas e imperfeitas sobre o lucro futuro.

O texto é bastante simplificado, mas dá um bom insight sobre um tema bastante debatido, mas nunca muito bem esclarecido pelos autores.

quarta-feira, abril 02, 2008

Um Ano Vivendo em República

Ontem, primeiro de abril, completou um ano desde que me mudei para a república estudantil no bairro Cidade Nova, Belo Horizonte.

Me lembro claramente da minha mudança (até então eu morava em um quarto "júnior" do Hotel Normandy, no Centro da cidade) feita via taxi, utilizando apenas minhas malas e sacolas de supermercado. Tinha planos iniciais de morar sozinho aqui, mas as restrições financeiras e burocráticas me levaram a aceitar uma vaga na república gaúcha do Cedeplar (Rubens e Bruno), já que um dos antigos moradores (Bruno) se mudaria um mês depois. No início, achei que iria estranhar dividir apartamento com pessoas que eu conhecia até então muito pontualmente, mas me adaptei muito rápido. Além disso, a república conta com uma faxineira semanal que lava toda a roupa, o que acabou com meus constantes estresses com lavanderias.

Me mudei numa sexta a noite, e só tive tempo de arrumar minhas coisas no meu quarto então não-mobiliado, apenas com um colchonete imundo e um guarda-roupas embutido. No dia seguinte, acordei cedo para comprar o essencial para minha sobrevivência acadêmica: um colchão barato (e vagabundo, já que afundou em menos de um mês de uso), uma escrivaninha usada e uma luminária de 20 reais (muito boa, por sinal). O resto dos meus móveis fui comprando depois que saiu minha bolsa, a partir de maio, eu acho. Obviamente, todos os móveis eram usados, comprados na av. Silviano Brandão (comentados em muitos posts anteriores).

Me mudar para a Cidade Nova, mesmo sendo afastado do Centro, não atrapalhou minha vida social no primeiro mês. Por muita sorte, duas linhas de ônibus saem da Savassi (bairro comercial e boêmio de BH) para o meu bairro, me deixando muito perto de casa, mesmo na madrugada. Contudo, as constantes provas e trabalhos do massacrante primeiro semestre do mestrado acabaram fazendo com que eu perdesse contato com meus amigos de BH fora do círculo acadêmico.

O Bruno se mudou para São Paulo em maio passado, e, como o Rubens passava todo o dia fora de casa trabalhando, e nos finais-de-semana ficava na república da namorada, acabei que eu fiquei um bom tempo sozinho em casa. Nesse período, comecei a "arranhar" minha culinária: mantive uma dieta de miojo Santa Amália (50 centavos o pacote no supermercado) e bifes de hambúrger (25 centavos cada) até o final do semestre. Hoje em dia, só o cheiro daquilo me causa enjôo! Para variar o cardápio, fazia cachorro-quente e pizzas e lazanhas congeladas, além de aprender a fazer arroz (ainda erro a medida para mais) e massa com alguns molhos simples (bolonhesa, carbonara, romanesca). Mas ainda tenho muuuuuuuuito o que aprender nesse sentido. Além de cozinhar, eu passei quase o primeiro semestre inteiro no quarto estudando.

A república mudou em julho, quando duas estudantes alemãs (Julia e Karolin) em viagem pelo Brasil pousaram em nosso apartamento, ficando por cerca de dois meses. Nesse período, deixei de ficar tanto tempo sozinho, e iniciou o atual sistema de divisão de trabalho republicano Rubens-cozinha-eu-lavo-louças. Meu estômago agradece, e a pele das minhas mãos reclama. Mas está tudo bem.

As alemãs saíram no final de agosto. Em outubro, a namorada do Rubens (Marla) se mudou para morar com a gente, e, em novembro, o Dinho, veterano da minha turma do Cedeplar, ocupou o menor quarto da república. O apartamento agora está bem cheio, mas as pessoas convivem com muita harmonia, e a divisão das despesas de aluguel vem sendo financeiramente muito favorável. Conseguimos colocar internet rápida e Sky TV em casa, também rachando os custos.

E eu acho que esse esquema vai durar por todo o ano de 2008. Mas aqui as coisas costuma mudar muito de repente. O que até venho gostando, como forma de quebrar a rotina sistematicamente.

Mapa da Pobreza em Porto Alegre - 9 (Passo das Pedras)

Prosseguindo com o mapa das vilas de Porto Alegre construído com base no Google Earth, agora vou mostrar o núcleo de pobreza no bairro Passo das Pedras. Esse bairro fica a sudoeste do Rubem Berta, apresentado anteriormente. As vilas concentram-se em um território aproximadamente entre as avenidas Ary Tarragô, Manuel Elias e Baltazar de Oliveira Garcia. O mapa geral da região é o seguinte:


Ao norte da av. Baltazar encontram-se algumas vilinhas isoladas. Algumas delas encontram-se dentro do Conjunto Costa e Silva, um empreendimento municipal de habitações populares. Mais ao norte está a Vila Amazônia, abordada anteriormente:


Ao sul da av. Baltazar está a Vila Passo das Pedras, aparentemente com infra-estrutura urbana parcial, e localizada no extremo oeste dos becos em direção à av. Ary Tarragô:


Mais ao sul, o bairro se mostra mais como uma zona de residências simples do que uma favela propriamente dita. Mas alguns becos do local concentram núcleos de pobreza:


A oeste dos becos anteriores e da av. Ary Tarragô encontra-se uma favela maior, a Vila Planalto-São Borja:


Contudo, o maior núcleo de pobreza de todo bairro encontra-se ao sul dos becos. O local, conhecido como Vila Passo das Pedras II, ou Vila dos Coqueiros, consiste em um complexo de vilas fundidas em uma grande favela, localizada em uma área rural entre as avenidas Ary Tarragô e Manoel Elias, ao norte da universidade FAPA. Ele está muito bem escondido dos olhos do público, como se vê na foto. Quem passa por qualquer uma das grandes avenidas observa apenas as árvores e áreas de pasto, e não os barracos, que estão mais para dentro dos terrenos. Algumas dessas vilas parecem mais organizadas do que outras, mas o complexo de pobreza está bem unificado:


Por fim, a leste do bairro Passo das Pedras, até a fronteira com o município de Alvorada, encontra-se o bairro não-regulamentado chamado Jardim Leopoldina (oficialmente ainda pertence ao Rubem Berta), composto por COABs, áreas rurais, condomínios populares e residências de classe média. Nessa região, encontrei apenas duas vilinhas isoladas: