quarta-feira, dezembro 26, 2007

Sobre a Queda Recente da Desigualdade no Brasil

Após todos os artigos que eu estudei na cadeira de Desigualdade e Pobreza, posso tirar conclusões sólidas sobre a evolução recente dos indicadores de desigualdade no Brasil. Como é amplamente divulgado sob o ponto de vista acadêmico e político, o Brasil tem um padrão de concentração de renda dentre os maiores do mundo. Mas essa situação, que foi estável da década de 70 até a década de 90, começou a melhorar lenta e significativamente a partir do ano 2000, e isso se dá por diversos fatores.

Em primeiro lugar, um fator puramente econômico e mercadológico. A partir do final da década de 90, houve uma integração do mercado de trabalho das grandes metrópolis brasileiras com as suas respectivas regiões metropolitanas, pelo maior volume de investimentos privados nelas como conseqüência dos seus menores custos imobiliários e de mão-de-obra (como a fábrica da GM construída em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre). Na última década, os diferenciais de salários nessas regiões têm diminuído bastante.

Em segundo lugar, um fator político. A expansão dos programas de transferência de renda, na segunda metade da década de 90, e a sua unificação sob o título de "Bolsa Família", na década de 2000, têm melhorado significativamente as dotações de renda das famílias brasileiras mais pobres. Tivemos notícias de vazamentos dos grupos beneficiados e de fraudes nesses programas, mas isso parece ser mais a exceção do que a regra.

Além disso, temos um fator que combina a dimensão econômica com a política. Esse fator é a universalização do ensino básico, promovida pela implantação do programa Bolsa Escola, na segunda metade da década de noventa. Nos últimos anos, as diferenças de rendimentos entre trabalhadores com ensino fundamental completo e incompleto têm se reduzido muito. Contudo, a sensibilidade do rendimento do trabalho em relação à educação do trabalhador continua extremamente elevada no país, sobretudo para os níveis superiores de escolaridade. Ou seja, houve uma convergência entre os salários dos trabalhadores de menor escolaridade, mas esses grupos continuam distantes dos mais instruídos.

Por fim, há um fator demográfico. Graças à contínua redução nos índices de natalidade no país, sobretudo nos grupos sociais de maior renda e maior educação, a razão de dependência (razão entre a população total e a população econômicamente ativa) no país tem reduzido significativamente, o que permite que um maior volume de poupança seja destinado ao investimento produtivo, e não ao sustento de inativos (crianças e idosos), o que estmula o crescimento econômico, por um lado (ver modelo de Sala-i-Martin, em um post futuro), e aumenta a renda per capita das famílias, por outro lado.

Como opções de políticas futuras para continuar esse progresso, os autores estudados recomendam o direcionamento das políticas fiscal e tributária do governo federal para a distribuição de renda para os mais carentes, a expansão do ensino médio, o investimento na qualidade do ensino básico e no ensino profissionalizante, e a reforma da estrutura previdenciária nacional, de forma a transferir recursos dos idosos para as crianças (da previdência para a educação), o que é possível apenas nas primeiras fases do processo de envelhecimento populacional. Contudo, a pressão política nesse último caso é muito forte contra esse tipo de medidas, uma vez que os políticos, e os eleitores em geral, tpreocupam-se mais com a própria aposentadoria do que com a educação dos mais pobres.

Esse é um tema muito interessante, e que eu gostei muito de ter estudado, enfim.

De Volta aos Pampas

Voltei para casa, em Porto Alegre, na quarta-feira passada. Na quarta, quinta e sexta, tive reencontros com muitos antigos amigos. No sábado, vim para a monótona praia de Torres para passar uma semana, incluindo o Natal com a família, e o ano novo. Volto pra POA no dia primeiro de janeiro. Aí eu escrevo um post de ano novo mais extenso e completo.

Acho que meus dois trabalhos de Dados em Painel, minha lista de exercícios de Avaliação de Políticas Sociais II e o resto do meu trabalho de Econometria I não vão sair tão cedo. Mas ainda tenho tempo.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Back Home

Quarta-feira, depois de amanhã, às 3 da tarde, pego meu vôo para passar três semanas em Porto Alegre. Espero reencontrar velhos amigos parentes.

Ainda tenho um artigo de Metodologia da Economia para matar antes de pensar em arrumar as malas. Mas já estou na metade.

Em POA, ainda terei artigos para fazer e coisas para ler. Essas férias serão longas, infelizmente.

Mas sinto saudades...

Encontro ANPEC em Recife (2) - Quinta Feira

Na quinta-feira, acompnhei meus colegas do Cedeplar na seção sobre Ciclos Eleitorais e Política Monetária no Brasil. Não é um tema ao qual estou habituado, e senti isso nas apresentações. Os modelos de economia política neoclássica eram totalmente novos para mim. Os resultados não me impressionaram: não há evidências de que a política monetária brasileira sofre efeitos eleitorais.

Depois, compareci à seção “Política Social e Desenvolvimento”, com os técnicos do IPEA, e não gostei muito. Achei tudo um tanto superficial, mas acho que tinha o viés da grande maioria dos trabalhos complexos que eu tinha assistido em todo o encontro.

À tarde, compareci na seção “Economia da Educação”, presidida pelo professor André Portela de Souza (FGV-SP). Os pesquisadores pareciam todos jovens alunos da pós-graduação. Os temas eram muito interessantes. Contudo, nessa seção, mais do que em todas as outras, senti o peso dos métodos econométricos dominando a preocupação dos pesquisadores, o que inclusive acabou tirando espaço da própria teoria econômica envolvida nos trabalhos. Me lembrou muito a palestra da McCloskey no dia anterior. O destaque da seção foi o emocionado Vladimir Ponczek (FGV-SP) explicando mecanismos de barganha intra-familiar para mostrar a importância da renda dos avôs (mas não tanto das avós) para a freqüência à escola por parte dos netos.

Por fim, assisti à seção “Desigualdade no Brasil”. Nessa seção, a Tatiane Menezes (Pimes-UFPE) apresentou um estudo empírico mostrando a desigualdade pessoal e regional de renda por meio dos gastos com consumo nas regiões metropolitanas brasileiras. Para isso, explorou o banco de micro-dados do POF. Depois, um pessoal da UFRJ falou sobre a importância das tarifas de energia como instrumento de política contra a desigualdade. Por fim, o Fábio Vaz, do IPEA, apresentou um modelo de escalas de equivalência para estimar indicadores de desigualdade no Brasil.

Confesso que muito do que eu assisti não consegui acompanhar e entender, sobretudo as questões mais técnicas. Mas o encontro foi muito produtivo academicamente a todos os participantes. Senti que aprendi bastante nesses três dias.

Encontro ANPEC em Recife (2) - Quarta Feira

Na quarta-feira, segundo dia de apresentações, acompanhei, pela manhã, a seção sobre metodologia da economia. Contudo, os trabalhos não me pareceram muito bons, ou eu que não consegui acompanhar o raciocínio dos autores muito bem. Minha impressão foi que sobraram ataques ao manistream e faltaram discussões mais técnicas. Mas o professor Gilberto Tadeu Lima (FEA-USP) fez um contraponto mais ortodoxo, e defendeu a formalização das teorias econômicas, como uma instrumento para organizar o pensamento e a análise.

Depois, tive nova palestra com a(o) Deirdre McCloskey, desta vez sobre uma (merecida) crítica ao uso e abuso que os pesquisadores em economia fazem dos métodos econométricos e testes de significância. Também, outra hora eu faço um comentário específico.

À tarde, acompanhei uma seção de Macroeconomia, chamada de “Política Monetária e Metas de Inflação”. Nessa seção, o Cleomar Gomes da Silva (FGV-SP) iniciou com um teste empírico sobre a possibilidade de existência de custos de menu provocando rigidez de preços na economia brasileira. Segundo o autor, não há indícios significantes sobre a presença de custos de menu, e o que mais provoca rigidez nominal no país são os preços administrados pelo governo. Uma conclusão bastante novo-clássica, é bom observar, e eu senti falta de um contra-ataque keynesiano (novo ou pós) logo em seguida, na discussão. Contudo, para variar, o debate envolveu apenas questões de métodos econométricos, do tipo “por que não rodar mais um teste?”. Depois, a Adriana da Cruz (UFF) modelou e testou o impacto da maior transparência do Banco Central ao adotar a política de metas divulgadas sobre a melhoria dos indicadores macroeconômicos do Brasil a partir de 1999. Trabalho muito bem construído, mas passível de discussões teóricas (não vi um controle sobre o ambiente econômico internacional antes e depois de 1999, o que me parece tão importante quanto as metas de inflação). Porém, novamente, as discussões se limitaram aos pontos mais técnicos. Por fim, o Gabriel Montes (UFF) apresentou um modelo novo-keynesiano de política monetária e equilíbrio de curto prazo, envolvendo curvas IS, LM e de Phillips com expectativas racionais, e política monetária com moeda endógena (o governo afeta a taxa de juros, e não a base monetária). É um tema que me interessa muito, e eu gostei da apresentação.

Em seguida, acompanhei a seção “Pobreza e Desigualdade de Renda”. Nessa seção, o Vítor França (FGV-SP) apresentou um modelo empírico sobre o impacto no emprego público sobre a desigualdade intra-municipal no Brasil. Para a estimação, o autor utilizou como variável instrumental para o emprego público se o município cumpriu ou não a Lei de Responsabilidade Fiscal ao longo do período de análise. A conclusão foi que os municípios mais gastadores, supostamente com mais funcionários públicos, tinham maior concentração de renda pessoal do que os demais. Contudo, foi muito criticada pela banca examinaora a possibilidade de endogeneidade desse instrumento. Depois, meu ex-colega da UFRGS Rafael Ribas (IPC/UNDP) apresentou um trabalho sobre a dinâmica da pobreza, isto é, sobre a entrada e saída de famílias abaixo da linha de pobreza. De acordo com o trabalho, quanto mais tempo uma família fica abaixo da linha de pobreza, maior e a possibilidade de permanecer nela, e isso tem suas causas na estrutura do mercado de trabalho. Por fim, o Marcelo Neri (EPGE-FGV) apresentou sua pesquisa sobre a decomposição dos elementos mensurados no mercado de trabalho brasileiro. Muito técnico e complexo. Mas foi bastante engraçado ver o constrangimento do jovem mestrando da FGV-SP ao ter que criticar o trabalho do tão famoso economista da FGV. Na verdade, vieram mais elogios do que críticas.

Encontro ANPEC em Recife (2) - Terça Feira

Eu estava a muito tempo devendo comentários mais acadêmicos sobre o encontro. Já tinha gente achando que eu fui para lá só para farrear e beber.

Depois de escrever sobre os detalhes mais turísticos sobre minha viagem para Recife, com a caravana do Cedeplar, escrevo agora sobre os assuntos mais acadêmicos.

O encontro da ANPEC em Recife, realizado no luxuoso Mar Hotel, contou com a apresentação de um grande número de trabalhos, organizados em diversas seções. Como muitas das seções aconteceram nos mesmos horários, tive que escolher para comparecer naquelas que estavam mais de acordo com o meu tema de pesquisa (Economia Social voltada para desigualdade, pobreza e educação), e, nas horas vagas, pude comparecer nas minhas áreas de interesse por hobby (macroeconomia, HPE, história econômica).

No primeiro horário de apresentações, compareci na seção “Programas de Transferência de Renda e a Pobreza no Brasil”. Nessa seção, vi trabalhos muito interessantes. A Célia Kerstenetzky (UFF), apresentou um indicador de desevolvimento humano baseado nas teorias de pobreza de Amartya Sen. Esse indicador continha diversas variáveis dummy derivadas de “conjuntos fuzzy”, isto é, não apresentam apenas valores binários, mas sim qualquer valor dentro do intervalo entre 0 e 1. Segundo a pesquisadora, essa técnica permite a mensuração da pobreza relativa, e não meramente a pobreza absoluta, tal como é quantificada pelo IDH tradicional. Depois, o Euclides Pedrozo (FGV-SP) avaliou o impacto do Bolsa Família sobre o trabalho infantil no Brasil. O autor estimou um salário de reserva para as famílias, que, comparando esse salário com o montante recebido de transferência pelo governo, escolheriam mandar seus filhos para o trabalho ou para a escola. Contudo, essa metodologia individualista, de que as famílias escolhem racionalmente se seus filhos vão trabalhar precocemente ou não, acabou provocando polêmica e breve discussão com o pessoal da UFF, que defendia uma visão mais social para essa problemática. Pegando o gancho no Bolsa Família, o carismático professor Carlos Azzoni (FEA-USP) apresentou um estudo empírico que mostrava que esse programa, se por um lado ajudava na diminuição dos índices de desigualdade pessoal no Brasil, por outro lado, os indicadores de desigualdade regional não eram afetados. Todos os trabalhos, enfim foram muito esclarecedores e interessantes.

Depois, participei da seção de HPE. Nessa seção, meu amigo e colega de Cedeplar Carlos Eduardo Supriniak apresentou seu projeto de tese, que resgata as obras originais de autores mercantilistas britânicos do século XVII. O Carlos pretende, com sua pesquisa, bater contra o preconceito que os economistas clássicos e contemporâneos têm com os mercantilistas, de que esses últimos ignoram os mecanismos econômicos reais e detêm-se apenas nos monetários. Na verdade, os autores preocupavam-se com a esfera da produção - mas não com o consumo, visto como “destruidor de riqueza”. Daí a preocupação com o comércio internacional: seria melhor para a economia nacional produzir para que os estrangeiros consumissem, ou destruíssem a riqueza real depois de terem pago por ela. Depois do Carlos, o professor Mauro Boianovsky (UnB) apresentou um excelente trabalho sobre as origens intelectuais de Celso Furtado e a sua relação com a economia do desenvolviento, em nível internacional. Por fim, Rogério Arthmar (UFES) apresentou a obra de Sismondi como uma contraposição, em seu contexto, à economia política clássica ricardiana. Devido ao meu fraco conheceimento de Sismondi, acabei não conseguindo acompanhar muito bem a essa apresentação.

No terceiro período, acompanhei a palestra da(o) economista da University of Illinois at Chicago Deirdre McCloskey, falando sobre ética, virtudes pessoais e a microeconomia neoclássica. Muito interessante, e mercece um post só para comentar isso (fica para outra hora).

À noite, ocorreu a aula magna com o prof. Marcelo de Paiva Abreu (PUC-Rio), sobre a história recente da economia brasileira, identificando os principais problemas que ainda afetam o país, e possíveis soluções. Muito legal.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

30 Dicas Para Escrever Bem

Recebido por e-mail.

1. Deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. É desnecessário fazer-se empregar de um estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que raia o exibicionismo
narcisístico.

3. Anule aliterações altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.

5. Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando for relevante) é desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou??... então

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é um erro em todas as situações.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde a palavra se encontra repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: "Quem cita os outros não tem idéias próprias".

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez, ou por outras palavras, não repita a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente principalmente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P, nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-Ias-ei!"

23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

24. Não abuse das exclamações! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!!!

25. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia nelas contida e, por conterem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam, desta forma, o pobre leitor a separá-la nos seus diversos componentes de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língúa portuguêza.

27. Seja incisivo e coerente, ou não.

28. Não fique escrevendo (nem falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e estar causando ambigüidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda estão acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando desta maneira irritante.

29. Outra barbaridade que tu deves evitar tchê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região onde tu moras, carajo!... nada de mandar esse trem... vixi... entendeu bichinho?

30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém irá agüentar já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Impressões sobre Recife

Recife, ao contrário do que muitas vezes ouvimos falar das grandes metrópolis do nordeste brasileiro, é uma cidade urbanisticamente muito bonita e organizada. Em toda a praia de Boa Viagem, principalmente na beira da praia, predominam prédios modernos do tipo arranha-céu, de mais de vinte andares cada, dotados de muito luxo. A arquitetura desses prédios é imponente, é prqticamente um espetáculo à parte da praia propriamente dita. E o imenso número de obras e construções ao longo de todo o bairro dá uma idéia de que a qualidade urbanística do lugar está em crescente expansão.

Além disso, pelo que eu percorri na cidade, nos trajetos aeroporto-Boa Viagem, Recife-Porto de Galinhas, Refice-Olinda e Boa-Viagem-periferia, pude observar que Recife é uma cidade de ruas largas e de poucas favelas. Mesmo contando com bairros humildes na parte da cidade mais próxima do mar, as únicas favelas propriamente ditas que pude ver na cidade estavam localizadas no caminho para Olinda, ao norte do centro, e eram favelas pequenas, tais como as “vilinhas” localizadas dentro de Porto Alegre, como aquelas na avenida Ipiranga e a vila Keddie na Nilo Peçanha. Grandes complexos de pobreza, como a Rocinha carioca, ouo Aglomerado da Serra belorizontino, não vi nenhum. Se existem, estão mais afastadas das praias e do centro da cidade.

O centro histórico de Recife, chamado de “Recife Antigo” é uma jóia histórica, composto por construções centenárias, e muitas delas em bom estado de conservação. Andando pelo bairro com meus amigos, tive a impressão de estar no passado, algo como no Brasil do século passado, ou mesmo em uma cidade de aquitetura lusitana no exterior, como na Índia ou em Angola. Além do antigo, havia uma sensação no lugar de deserto (já que a maioria das casas estava fechada, mesmo que fosse início de noite), com aparência algo que ameaçadora. Gostaria de ter passeado mais por ele, mas vai ficar para uma outra visita no futuro.

O maior problema da cidade, ao meu ver, é a falta de policiamento. Andar à noite pelas ruas, mesmo nos bairros mais finos, como a Boa Viagem, é uma aventura de risco, ainda que se ande em grandes grupos. Os assaltantes andam livremente pelas ruas, não se dão sequer o trabalho de se esconder nas vielas e becos mais escuros, tal como fazem em Porto Alegre, que é uma cidade que já não é famosa pela sua segurança. Além disso, a única viatura policial que eu vi em toda a minha estadia na cidade estava parada em uma avenida de Boa Viagem, rodeada de garotas de programa. Já me falaram que é comum que, nas cidades do Nordeste, os policiais façam ronda noturna à paisana. Porém, pela tranqüilidade dos assaltantes nas ruas em busca de presas, isso não parece ser verdade.

Encontro da ANPEC em Recife – PE (1)

De sábado retrasado (1/12) até o fim-de-semana passado (8/12) estive fora de BH, participando do encontro nacional dos cursos de pós-graduação em economia, acontecido em Recife, Pernambuco. O encontro propriamente dito durou não mais de três dias, mas o pacote completo de viagem, oferecido pelo Cedeplar-UFMG, proporcionou aos alunos uma semana inteira para aproveitar, tanto academicamente como turisticamente, o evento.

Chegamos em Recife no dia 1 de dezembro, às 6 horas da tarde. Era noite escura (no Nordeste, o pôr do sol é, em média, às 17:30). Após deixarmos as malas no hotel Onda Mar, um três estrelas muito limpo e agradável, fomos caminhar no calçadão da praia de Boa Viagem, a mais famosa da cidade, e próxima ao hotel. Jantamos comida típica numa feira popular próxima à praia. Eu comi duas tapiocas (um tipo de pastel feito com farinha de mandioca assada, de cor branca e sem gordura) de carne-de-sol com queijo coalho, a R$ 2,50 cada. Confesso que gostei bastante dessa iguaria, que se tornou uma das minhas principais fontes de alimentação em toda a viagem. Depois disso, fomos tomar cerveja em um bar em uma rua atrás do hotel, e ficamos até uma onze horas da noite.

No dia seguinte, acordamos cedo e alugamos uma van para nos levar ao Porto de Galinhas, uma praia turística paradisíaca localizada a uns 100 km ao sul de Recife. Ficamos em uma pousada-albergue muito boa e barata (30 reais a diária) lá, no domingo e na segunda-feira. No domingo, passamos o dia inteiro na praia. O mar, fechado e sem ondas, é de uma cor verde-transparente que eu só tinha visto em filmes. A temperatura da água é tal que dá uma sensação de frio quando se sai dela. Além disso, como ainda era época de baixa estação de turismo, pudemos desfrutar de maior limpeza e privacidade. No final da tarde, andamos de jangada e fizemos mergulho, observando os peixes (uma espécie só, pequena e zebrada) no fundo do mar. Só saímos da praia após o pôr do sol, às cinco e meia da tarde. Após isso, pagamos nossa extensa conta de bebidas e petiscos no quiosque local e fomos tomar banho na pousada para depois sair para jantar. Jantamos em um restaurante simples, de preço mais acessível. Após isso, caminhamos pela cidade do Porto de Galinhas em procura de alguma forma de diversão noturna. A cidade é tipicamente uma praia turística: consiste basicamente de lojinhas de artesanato local, bares, lancherias e restaurantes, alguns armazéns, e pouquíssimos indícios de habitações residenciais. Contudo, exatamente por ser um período de escassa população turista, não encontramos nenhum lugar de consenso para fazermos nossa noite. Por isso, acabamos por comprar bebidas em um armazém e passar a noite em um salão da pousada jogando conversa fora, madrugada adentro. Contudo, acordamos cedo no dia seguinte para aproveitar mais um dia de praia.

Na segunda-feira, saímos da pousada às oito da manhã e caminhamos cerca de uma hora e meia na areia, até chegar em outra praia próxima a Porto de Galinhas. Essa praia era afastada, com menor público, com uma faixa de mar aberto com ondas fortes, e uma piscina natural paralela ao mar, formando uma pequena baía. Novamente, habitamos um quiosque e passamos o dia inteiro lá. Mesmo sendo um ponto turístico, o custo de alimentação é muito baixo lá. Cada cerveja custava 3 reais a garrafa, um valor próximo dos botecos de BH, e muito abaixo dos bares da Lima e Silva, em Porto Alegre. O almoço custou uns 12 reais para cada um, e sua qualidade (peixe assado com arroz, farofa e aipim, macaxeira no dialeto local, frito) era excelente. Voltamos para Recife às 5 da tarde. Tomamos banho no hotel e saímos para jantar. Meus amigos sugeriram ir comer churrasco de bode, um prato típico do Nordeste. A carne não era ruim, um pouco mais amarga e macia que a carne bovina, mas confesso que os meus colegas apreciaram a iguaria mais do que eu. Não sei se foi por isso, ou pelos litros e mais litros de cerveja que eu tinha tomado nos quatro dias anteriores, mas naquela noite eu passei muito mal. Acabei não podendo sair com meus colegas na noite, e preferi dormir cedo para me garantir inteiro para o início das atividades acadêmicas no dia seguinte. Mas, pelo bar em que meus amigos foram, que eu conheci no dia posterior, não perdi muito. A partir desse dia, comecei a controlar bastante minha alimentação, e sobretudo, minhas ingestões líquidas.

Na terça-feira, acordei às sete da manhã e fui para o encontro da ANPEC, realizado em um hotel de luxo (Mar Hotel) a umas cinco quadras do hotel em que estávamos hospedados. Lá, participei das sessões voltadas a minha área de pesquisa – Economia Social com ênfase em desigualdade, pobreza e educação – alternando com minhas áreas de interesse por hobby (Macroeconomia, Metodologia e HPE). Encontrei antigos colegas, o André e a Daniela (EA-UFRGS), e professores (Marcelo Portugal, André Cunha e Octavio Conceição). À noite, a ANPEC realizou um coquetel com comída e shows de danças típicas. Após isso, fomos para o bar que minha turma tinha ido na noite anterior, o “Bar do Bode”, próximo ao Mar Hotel. Porém, graças ao calor local, superado apenas pelo calor da cerveja, não conseguimos ficar muito tempo lá.

Na quarta-feira, após as apresentações de trabalhos, fomos à noite para o centro histórico da cidade, o “Recife Antigo”, localizado em uma ilha na confluência dos principais rios que percorrem a cidade e o mar. O centro histórico é uma área de imenso valor histórico, com construções centenárias. Contudo, a quase inexistência de policiamento no local nos deu uma sensação de insegurança, e evitamos passeios demorados pelas ruas. Entramos em um shopping de luxo, localizado no local sem nenhum aviso publicitário, no qual nos encontramos com outros amigos, e fomos a um bar em um beco próximo. A óbvia escasssez de higiene do local assustou um pouco nossas amigas, e resolvemos ir a um outro lugar ali perto, um pub de inspiração britânica, tocando rock ao vivo, chamado “Downtown”. Esse lugar era um pouco mais caro que os demais pontos da cidade que eu conheci, mas essa foi a melhor noite que fizemos juntos em Recife. As bandas eram boas e agradaram a todos. Voltamos de madrugada para o hotel, e acordamos cedo no dia seguinte.

Na noite de quinta-feira, após as últimas apresentações, a ANPEC ofereceu uma festa de encerramento aos participantes, em um hotel ainda mais fino do que naquele onde o encontro foi realizado: foi no Hotel Atlântico, na beira da praia de Boa Viagem. A festa, certamente, foi bastante chique: garçons engravatados não pararam de distribuir bebidas e iguarias locais, e a organizção e decoração do lugar estavam impecáveis. Todavia, a partir da uma hora da manhã, a bebida acabou, o som desligou, e os garçons começaram a recolher os pratos e copos e limpar o chão. Um claro sinal de que a festa, prematuramente para todos, estava acabada. Fomos, quase todos, caminhando de volta para o nosso hotel. No dia seguinte, pudemos acordar mais tarde.

Na sexta-feira, acordei às oito e meia da manhã, tomei café no hotel, e em seguida, fui com um colega conhecer Olinda, uma cidade histórica localizada ao norte de Recife. Olinda tem uma arquitetura pitoresca, própria da colonização lusitana de séculos passados, com casas semelhantes e coloridas. Contratamos um guia turístico local para nos levar aos lugares mais visitados. Entramos em igrejas de quase quinhentos anos e tiramos muitas fotos. Devido à forte irradiação de calor provocada pela pavimentação das ruas (feita com pedras pretas chamadas de “cabeça de negro”), ficamos exaustos rapidamente, mesmo tomando várias doses de água de coco para hidratação. Voltamos para Recife no início da tarde. Sozinho, eu almocei no Habbibs ao lado do hotel, e dormi a tarde toda, para repor as energias. À noite, jantamos novamente (pela terceira ou quarta vez, eu acho) tapioca na feira popular, e fomos para uma tradicional casa de música regional, a “Sala de Reboco”, na periferia da cidade. O lugar é bastante rústico, porém bem organizado: ao lado da pista de dança, estão uma grande quantidade de mesas e cadeiras, para todos aqueles que, como eu, divertem-se mais com as atividades de beber e de conversar do que propriamente de dançar. Mas o calor do lugar era demais. Suei a ponto de perder peso. Mas, pelo menos, tinha cerveja Bohemia barata para me refrescar, o que elevou muito meu ânimo. Voltei para o hotel de taxi com meus colegas às 3 da manhã.

No sábado, pude acordar mais tarde (9 da manhã), tomei café no hotel e apenas caminhei na praia, tirando fotos com meus amigos. Fomos para o aeroporto às 11 da manhã e embarcamos no avião às 2 e meia da tarde. Cheguei na minha república, em BH, no início da noite, e só tive o tempo de desfazer as malas e jantar uns cachorros-quentes entes de desabar na cama e dormir tudo o que eu não pude em toda a semana anterior.

sábado, dezembro 01, 2007

Going to Recife (ANPEC)

Nesse momento, eu estou digitando esse post no computador de um colega do Cedeplar, em cuja república eu dormi na madrugada passada, após uma exaustiva noite social de despedida do atual prédio do Cedeplar.

Nós vamos de comboio para o aeroporto de Confins agora ao meio-dia, e itegraremos a "caravana Cedeplar" para o encontro da ANPEC (Associação Nacional de Pós-graduação em Economia), em Recife-PE.

Tenho muitas expectativas para essa viagem, e inclusive acadêmicas. Parece que o/a McCloskey, da Retórica, vai dar as caras por lá.

terça-feira, novembro 27, 2007

As Causas da Pobreza - Resenha de SHWARTZMAN (2004)

Simon Schwartzman, em seu artigo “As Causas da Pobreza” (2004) aponta que os problemas da pobreza e da desigualdade entre as pessoas são tão antigas quanto a própria humanidade, e tenderam a ser explicadas por teorias baseadas em sentimentos morais. Isto é, nos séculos mais remotos, devido ao grande número de indivíduos vivendo na pobreza e na indigência, em todas as sociedades, e ao limitado volume de recursos disponíveis, as discussões que se faziam eram baseadas em selecionar quais pessoas tinham o merecimento moral de receber ajuda e caridade das instituições políticas e sociais e dos indivíduos mais abastadas.

A discussão sobre as verdadeiras causas da pobreza, e como de fato combatê-las datam do final do século XVIII e do início do século XIX em que, com a Revolução Industrial já se consolidando nos países mais avançados da Europa, a produção econômica já parecia provocar mudanças positivas no padrão de vida de muitas pessoas. Nesse período, o debate acontecia entre duas visões predominantes sobre o assunto.

Uma delas, entendida como visão malthusiana, apontava que a pobreza tinha uma origem individualista, pelo fato de que as pessoas tinham o costume de se reproduzir em uma taxa superior ao do crescimento da oferta de alimentos, o que provocava a sua crescente escassez. Segundo esse paradigma, a assistência social, ao aumentar artificialmente a renda da população mais pobre, poderia reduzir momentaneamente os índices de mortalidade da população, o que, no longo prazo, aumentaria o seu número, mas não o seu padrão de vida. Assim, os únicos fatores que poderiam controlar estruturalmente a pobreza na sociedade seriam a educação, o controle reprodutivo e a própria natureza, que determinaria o tamanho de equilíbrio natural da população.

A visão alternativa a esse paradigma é freqüentemente definida como socialista, tendo origem fundamentada na moral cristã católica. Segundo essa visão, a pobreza é um fenômeno social, causada por defeitos morais dos indivíduos mais ricos, que teriam seu comportamento guiado pelo egoísmo e pela ganância, e não pelo altruísmo e por um senso de cooperação e ajuda ao próximo. Assim, os conflitos entre as pessoas pobres e ricas em cada sociedade, entendidas como lutas de classes sociais, determinariam a própria dinâmica social, em nível global.

Na Europa do século XX, o autor aponta que ambos paradigmas se fundiram em um conceito de ordem social, política e econômica definida como “social-democracia”, ou “welfare state”. Essa ordem social buscou equilibrar os conflitos entre capital e trabalho, ao propiciar uma melhor distribuição de riqueza entre capitalistas e trabalhadores, levou a uma redução da pobreza em praticamente todos os países, e acabou influenciando outras regiões do mundo, tais como a América Latina, e, particularmente, o Brasil.

Em relação ao Brasil, Schwartzman destaca que até o final do século XIX não havia no país uma preocupação social, nem em termos políticos, tampouco em termos intelectuais, com a questão da pobreza. Isso aconteceu devido a dois fatores. Em primeiro lugar, pela existência da escravidão como componente central da sociedade e da economia, o que excluía da visão social nacional, as questões referentes à população livre pobre. Em segundo lugar, pela estabilidade populacional que o Brasil apresentou nessa época, caracterizada pela inexistência de deslocamentos populacionais em massa tais como o que os países industrializados passavam. Tal fator contribuiu para a não-expropriação da população pobre livre de seus meios de produção (principalmente as pequenas propriedades rurais), que levou a uma criação incompleta de mão-de-obra assalariada anterior à chegada de imigrantes europeus.

A preocupação nacional com a pobreza e a miséria iniciou-se com a proclamação da República, no final do século XIX, baseada na consolidação do positivismo como paradigma dominante nas ciências sociais em nível nacional. Tal paradigma baseava-se, basicamente, na defesa de um governo forte, centralizado, capaz de planejar a sociedade e a economia e de educar o povo, utilizando para isso, o desenvolvimento do conhecimento científico disponível. Como alternativa ao positivismo, existia na época a visão eugenística da sociedade, segundo a qual a pobreza e a desigualdade eram originárias das características raciais e culturais da população brasileira, que eram contrárias aos bons valores da higiene e do trabalho. As soluções para os problemas sociais nacionais passavam, nesse sentido, em um esforço pelo “branqueamento” da sociedade e no ajuste institucional e cultural do país, o que poderia colocar o Brasil em uma rota de desevolvimento social progressivo.

Na década de trinta, a sociedade brasileira passou a ser explicada por uma idéia de corporativismo social, inspirada pela ideologia da Igreja Católica da época e pelos modelos autoritários da Itália e da Alemanha. Segundo essa abordagem, a sociedade não deve ser entendida como um somatório de indivíduos livres, mas sim como um organismo no qual cada parte desempenha um papel previsto e determinado. Para isso, seria necessária a existência da supervisão de um mecanismo de poder centralizado e protetor. Ou seja, mediante a atuação de um Estado elitista e autoritário, modernizado pelos insturmentos proporcionados pela ciência e pela educação, a sociedade brasileira poderia ser ordenada de modo a tornar o país uma potência mundial. No que diz respeito à assistência social, acreditava-se no papel hierárquico e paternalista do Estado, de ser o “pai dos pobres”, como em Getúlio Vargas, capaz de cuidar da população carente da mesma forma que as famílias cuidam dos seus filhos mais novos. Contudo, isso teve a conseqüência de incentivar a submissão e a subservência da população pobre brasileira.

Como visão social alternativa ao corporativismo, e à qual o autor confessa ter feito parte durante à juventude, Schwartzman cita o estruturalismo. Segundo essa visão, de conteúdo predominantemente socialista, a pobreza tem causas estruturais na sociadade, principalmente a exploração do capital pelo trabalho e o poder político das elites, utilizado em nome da exploração dos trabalhadores e do parasitismo sobre os recursos públicos, assim como a alienação da população, que serve como um bloqueio à consciência de classe capaz de contribuir para uma mudança social, política e econômica no país.

Por fim, o autor aponta algumas conseqüências políticas e ideológicas desses movimentos intelectuais que influenciaram de modo decisivo as políticas sociais adotadas no Brasil em toda a sua história republicana. Principalmente, o autor destaca a visão, predominante na sociedade, de que os direitos sociais são devidos independentemente da existência ou não de recursos e condições econômicas para satisfazê-los, de modo que os únicos limites para os gastos públicos levados em cosideração são a corrupção e a captura do Estado por grupos de interesse privados. Contudo, pela conjuntura atual, de restrição orçamentária a gastos públicos e de permanência de elevados níveis de desigualdade de renda e de distribuição de benefícios sociais no país, a questão refernte ao papel e às características dos programas sociais consistirá em breve em um problema iminente no Brasil atual.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Auto-Presentes de Aniversário

Segunda-feira, dia 19 de novembro, completei 23 anos. Fui bastante cumprimentado pelos meus amigos do orkut, minha família (por telefone) e pelos meus colegas de pós-graduação.

Como não ia ganhar nenhum presente mesmo, torrei parte da minha bolsa nos sebos da Galeria do Maletta, do centro daqui de BH (que digamos, equivale à rua Riachuelo de Porto Alegre sem o cheiro de lixo e de urina). Minhas três aquisições foram:

1- Caderno H (Mário Quintana), para matar uma parte da saudade de casa;
2- Economia, Paz e Humor (John Kenneh Galbraith), para ler textos mais suaves de economia, e aproveitar um poco do conhecimento prático e empírico do autor;
3- Matemática para Economia e Administração (Weber), procurei em Porto Alegre antes da Anpec, mas não encontrei. Achei bem barato aqui em BH, e comprei só a base do "pode ser que sirva para alguma coisa". A parte de equações diferenciais dele é tida como bastate completa e didática.

Daqui a um ano, fari 23 anos de novo.

terça-feira, novembro 20, 2007

Harry Potter e As Relíquias da Morte - J. K. Rowling

Enfim, a saga "Harry Potter" chega ao seu fim, no seu sétimo livro. Como ávido leitor, e fã assumido, não resisti uma promoção de lançamento nas Lojas Americanas e matei esse livro em não mais do que cinco dias, com uma breve interrupção para concluir o trabalho de Modelos Hierárquicos.

Já falei que sou fã assumido da saga de Harry Potter. As histórias são consistentes, os enredos mantém mistérios que cativam a leitura, as histórias sabem alternar fantasias mágicas e realidades da vida inanto-juvenil, desperta a imaginação e a nostalgia e, acima de tudo, incentiva milhões de crianças em todo o mundo a ler. É verdade que muitos dos personagens são descritos de maneira extremamente estereotipada e caricatural, e a maturidade apresentada pelos personagens principais em suas aventuras não corresponde nem de longe àquela presente mesmo em pessoas adultas, no mundo real, nas situações críticas como as descritas nos livros. Porém, a grande maioria das críticas feitas à autora têm conteúdo muito mais invejoso do que propriamente técnico e construtivo.

Todavia, confesso que o desfecho da saga do menino-prodígio-bruxo me deixou bastante decepcionado. O último livro não acompanha, nem de longe, a qualidade das obras anteriores, seja na temática da história em si, seja pelo desenrolar do enredo.

A história baseia-se, basicamente, na luta entre os amigos de Harry Potter (incluindo os antigos personagens membros da "Ordem da Fênix" e da "Armada de Dumbledore"), isto é, o "bem", contra os suportadores do Lorde das Trevas Voldemort (os "Comensais da Morte"), isto é, o "mal". Na história, só há um personagem aparentemente ambíguo, cujo comportamento pende hora para um lado, hora para outro, que é Severo Snape, o professor que Harry Potter tanto odeia. Concluir uma saga com uma grande luta do bem cotra o mal não é nem um pouco criativo, mas, conforme a narração pelo autor, sempre tem boas possibilidades de prender o leitor. Porém, os pontos fracos do livro passam longe daí.

Segundo a narrativa do livro, os suportadores de Harry Potter se preparam para um confronto físico (quer dizer, mágico) diretamente contra os Comensais da Morte, Harry e os seus melhores amigos (Rony e Hermione) se separam do grupo principal, abandonam a escola Hogwarts e partem por uma jornada sem rumo pelo mundo, com o objetivo de destruir os sete objetos que contêm fragmentos da alma de Voldemort (Horcruxes). E essa jornada é totalmente vaga, a narração foca muito mais problemas irrelevantes de relacionamento entre os personagens do que a aventura propriamente dita. Além disso, a autora dá pouquíssimas informações sobre o que acontece na luta formal da Ordem da Fênix contra os Comensais da Morte, o que desperta uma curiosidade insasciável, e uma sensação de incompletude do enredo. Por fim, alguns dos personagens mais clássicos da série são mutilados e mortos nas batalhas tais como baratas, isto é, sem o componente humanístico presente nos livros anteriores quando tais situaçÕes ocorreram. E ainda, no final do livro (sem spoiler), as próprias horcruxes, em sua maioria, estavam localizadas em lugares óbvios e de fácil acesso para os personagens obterem.

Ou seja, o livro dá a impressão de que foi escrito no improviso, isto é, o final da saga não estava planejado pela autora logo no seu início. É um tanto frustrante para os leitores mais "chatos", como eu, mas quem acompanhou toda a série, é improvável que não vá ler o último livro apenas por causa das críticas.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Resultados da Proxy para o Trabalho Infantil

Demonstrando o que eu escrevi no post sobre o comportamento da proxy "trabalha" para o trabalho infantil, mensurada pelo recebimento ou não de rendimentos do fator trabalho para as crianças da amostra, com base nos microdados do POF.


Como pode-se ver, há uma correlação de mais de 25% entre a idade das crianças e essa variável, o que mostra que são as crianças mais velhas que procuram trabalho remunerado, e bate com a intuição.


Na tabela de resultados do modelo hierárquico comleto com interceptos aleatórios (outra hora eu explico o que é), o fato da criança trabalhar ou não tem uma significância negativa de mais de 7 pontos na tabela da distribuição Normal, o que dá uma tremenda significância do efeito dessa variável sobre o abandono à escola.

Sobre a Dificuldade de se Mensurar o Trabalho Infantil

Em pesquisas de Economia Social, principalmente aquelas que utiliam microdados para análises empíricas, incluir o efeito do trabalho infantil, assim como suas correlações com as características das famílias em que isso ocorre é de importância fundamental, e permite que se obtenha conclusões muito sólidas, sobre qualquer variável socio-econômica que se esteja estudando. Contudo, mensurar o trabalho infantil não é fácil, e o uso de variáveis proxies, em estudos empíricos, é necessário.

Em primeiro lugar, o próprio conceito de trabalho infantil é incerto. Considerar como "trabalho" qualquer atividade produtiva exercidas pelos filhos de qualquer família, com idade inferior a dezesseis anos, pode trazer estimativas viesadas de seus efeitos e correlações. Por exemplo, uma família pode responder, em pesquisas de campo, que sua filha trabalha com prestação de serviços se ela diariamente lava as louças da família após o jantar. Em outro exemplo ainda mais traiçoeiro, Simon Schwartzman (2004) alerta para o efeito nulo do trabalho infantil sobre a freqúência à escola de crianças residentes nas áreas rurais da região Sul brasileira. Segundo o autor, nesses lugares as crianças costumam estudar em um turno do dia, e ajudar seus pais no trabalho agropecuário e doméstico, de forma informal não-remunerada, no outro turno. Segundo o autor, esse efeito também acaba distorcendo o efeito do trabalho infantil sobre a escolaridade das crianças.

Uma boa proxy para controlar as características intra-familiares do trabalho infantil é considerar apenas aquelas crianças que exercem trabalho remunerado. Intuitivamente, essa consideração captaria apenas aquelas crianças que procuram vender a sua força de trabalho no mercado, como forma de aumentar a renda familiar (apontando assim uma correlação negativa entre a incidência do trabalho infantil e a renda da família). Em bancos de dados, como a pesquisa de Orçamento Familiar (POF) existe variáveis como "unidade de orçamento familiar", que mensura quanto que cada indivíduo recebe po rendimento de seu fator trabalho. Cruzando essa variável com as informações dos filhos mais jovens (como abaixo de catorze ou quinze anos), pode-se criar ume dummy para as crianças que recebem rendimento por seu trabalho (isto é, que exercem trabalho infantil) e as que não recebem.

PS. No meu trabalho de modelos hierárquicos, que estima determinantes familiares, individuais e estaduais para a freqüência à escola, essa dummy funcionou muio bem, e foi o principal fator negativo para o abandono à escola por parte de adolescentes a partir dos treze anos. Ou seja, foi um resultado muito intuitivo.

domingo, novembro 18, 2007

Evolução Recente dos Indicadores de Pobreza e Desigualdade no Brasil

Embora a dimensão do problema da pobreza, e sobretudo da desigualdade no Brasil seja amplamente divulgado em estudos de diferentes áreas das ciências sociais, os mecanismos da dinâmica dessas variáveis, e o seu comportamento presente e esperado para o futuro, ainda é incerto, e tema de incansáveis e interessantes discussões. Indicadores estatísticos mostram que tanto a desigualdade como a pobreza no Brasil tiveram uma trajetória temporal estável da década de setenta até meados da década de noventa. A partir da estabilização macroeconômica, em 1994, a pobreza começou a ceder, e, a partir do ano 2000, os indiciadores de desigualdade começaram a diminuir, aparentemente de forma estrutural, isto é, não parece ser um simples choque de curto prazo nas séries.

Paes de Barros, Henriques e Mendonça, em seu artigo “A Estabilidade Inaceitável: Desigualdade e Pobreza no Brasil” (2001) buscam estudar o comportameno estável, porém crítico, dos indicadores de desigualdade e pobreza no país, da década de setenta até a década de noventa. Os autores mostram a evolução temporal da indigência e da pobreza no Brasil de 1977 a 1999, destacando que, enquanto que na década de 70 o percentual de indigentes e de pobres no Brasil era de, respectivamente, 20% e 40%, no final dos anos 90 ambos percentuais cairam para 15% e 33%. O estudo mostra a correlação entre a pobreza e o descontrole inflacionário no país: os anos em que ambos indicadores apresentaram quedas mais significativas foram 1986, após o plano Cruzado, e 1995, após o plano Real. Os autores argumentam que, apesar da queda em ambos indicadores ao longo dos vinte anos analisados, o atual patamar de pobres e indigentes no Brasil ainda é muito elevado.

Sobre a natureza da pobreza no Brasil, os autores apontam que o Brasil, apesar de não ser um país pobre, é um país que tem muitos pobres. Isto é, o problema da pobreza no Brasil não provém da escassez de recursos, mas sim da má distribuição de recursos existentes. Segundo os autores, a renda per capita do Brasil enquadra o país no terço dos países mais ricos do mundo, e equivale a quase quatro vezes a linha de pobreza estabelecida pelos autores para o país. Contudo, a porcentagem de pobres é muito maior do Brasil do que nos demais países de renda per capita semelhante (como a Malásia e a Tailândia), e os níveis de concentração de renda, seja o coeficiente de Gini, seja a razão de renda entre os estratos sociais mais ricos e mais pobres da sociedade, coloca o Brasil como o país mais desigual do mundo, acompanhado pela África do Sul e outros países africanos e centro-americanos. Além disso, os autores destacam a estabilidade do patamar de desigualdade de 1977 a 1999 (que eles chamam de “a estabilidade inaceitável”), culpando esse fato à inexistência de políticas específicas no Brasil para o combate à desigualdade a para a redistribuição de renda. Segundo os autores, o crescimento econômico é um fator importante, porém lento e incompleto para reduzir a pobreza: combater a desigualdade é necessário para que o crescimento tenha efeito mais duraouro em reduzir o atual patamar de porcntagem de pobres no país.

Porém, a desigualdade começou a ceder a partir de meados do ano 2000, isto é, um ano após o limite da série estudada pelo artigo comentado anteriormente. Os determinantes dessa queda foram estudados e analisados por um livro do IPEA, “Desiguadade de Renda no Brasil, uma Análise da Queda Recente”. Em primeiro lugar, os autores do IPEA destacam que a queda dos indicadores de desigualdade são de origem sócio-econômica, e não correspondem a mudanças na metodologia de mensuração.

Os autores concluem que a recente queda na desigualdade de renda no Brasil não é um choque de curto prazo, mas sim uma quebra estrutural, ligada a fatores políticos, econômicos e demográficos. Dentre os fatores listados pelos autores, destaca-se demograficamente o envelhecimento da população, que eleva o número de adultos trabalhadores em detrimento das crianças, o que eleva a renda per capita em nível familiar. O fator político apontado é a expansão dos programas de transferência de renda por parte do governo, principalmente o Bolsa-Família, os quais tendem a ser universalizados para toda a população pobre do país. Por outro lado, os fatores mais mercadológicos apontados pelos autores para a redução da desigualdade são a diminuição, no mercado de trabalho, dos diferenciais de rendimento por níveis educacionais mais baixos (como entre trabalhadores com ensino fundamental incompleto e completo) e dos diferenciais espaciais de salários, entre a população das capitais e dos municípios do interior, pela maior integração econômica dentro dos estados.

Por fim, os autores apontam alternativas para políticas de redistribuição de renda, com o objetivo de acelerar o processo de redução da desigualdade no país. Os autores recomendam, sobretudo, a universalização da educação, como forma de se equalizar as oportunidades futuras de emprego, e a reforma fiscal, com o objetivo de tornar a arrecadação tributária e o gasto público o mais eficientes e progressivos possíveis. Além disso, os autores apontam que, para que o mercado de trabalho possa absorver trabalhadores de qualificação mais equalizada, é necessário que se incentive a criação de postos de trabalho de maior qualidade, o que pode ser feito, por exemplo, pelo melhor acesso ao progresso tecnológico por parte das pequenas empresas brasileiras.

sábado, novembro 10, 2007

Sobre a Dificuldade de se Mensurar a Pobreza

Um dos principais desafios ao estudo dos aspectos econômicos da pobreza é a sua mensuração. É muito difícil de se encontrar uma definição segura e absoluta para a definição de pobreza. Angus Deaton (2003) cita uma pesquia empírica em que os estudiosos buscaram uma resposta mais segura para esse problema perguntando diretamente para moradores de comunidades dos Estados Unidos (exemplo de nação rica) e da Índia (exemplo de nação pobre). Enquanto que na Índia a pobreza é mais popularmente relacionada com a falta de condições para o trabalho (como, por exemplo, os doentes, os aleijados e as viúvas), no Estados Unidos os pesquisados apontaram que a pobreza está relacionada a um padrão mínimo de renda socialmente tolerável de se viver em sua comunidade. Assim, é possível pensar em mensurar a pobreza pensando em uma “linha de pobreza”, acima da qual o padrão de vida das pessoas é aceitável sob o ponto de vista político e social. Mas ainda permanece a questão de como definir o que envolve a definição desse tipo de linha.

Muitos autores relacionam a linha de pobreza como um padrão mínimo para a subsistência do indivíduo. Por isso, essa linha poderia ser mensurada como um piso para os gastos individuais (ou familiares) com a alimentação – a variável chave para a subsistência. Essa hipótese é microeconomicamente fundamentada pela lei de Engel, segundo a qual os indivíduos mais pobres de uma sociedade gastam toda a sua renda com alimentação, e, conforme melhoram suas condições de vida, o percentual de sua renda gasta com a alimentação é decrescente. Sob essa ótica, pesquisadores da metade do século XX consideraram que o consumo de 2000 calorias por dia equivale à alimentação mínima de subsistência de um indivíduo, e a linha econômica da pobreza seria calculada de acordo com o valor mínimo de uma cesta de consumo que contesse essa dotação de calorias. Contudo, Deaton (2003) explica que há uma séria inconsistência microeconômica nessa hipótese: os indivíduos consomem alimentos não pensando apenas no seu valor calórico, mas sim nas suas preferências pessoais com a variedade, a qualidade e o sabor daquilo que comem. Sônia Rocha (2000) complementa explicando as possíveis heterogeneidades do consumo mínimo de subsistência de calorias em uma mesma população. Para a autora, esse indicador tem um sério viés regional, em que aos habitantes rurais tendem a consumir mais calorias do que os urbanos, como também de ocupação, já que os trabalhadores braçais teriam que consumir mais calorias do que os intelectuais.

Além disso, trabalhar com a linha de pobreza definida apenas em termos de renda não é politicamente conveniente para Deaton (2003). Tal interpretação levaria à conclusão política de que distribuir renda para os indivíduos logo abaixo da linha, de modo a fazer com que eles a superem, é mais vantajoso do que ajudar os muito pobres. Ou seja,a pobreza, e a sua mensuração, não podem ser entendidas apenas sob o ponto de vista econômico, mas sim sob o ponto de vista político e social, incluindo observações, por exemplo, sob a variabilidade das condições de saúde e de educação entre os indivíduos de uma população.

Outro problema comum para a mensuração da pobreza é o seu caráter dinâmico. Segundo Deaton (2003) o crescimento econômico pode afetar a distribuição de renda em um país, e isso deve ser levado em conta na atualização dos índices sociais. Além disso, o autor destaca que, quando países pobres crescem vigorosamente durante um certo período de tempo (como a Índia e a China atuais), a mensuração do próprio crescimento econômico pode ser viesada pelo chamado “Efeito Al Capone”, em que o desenvolvimento econômico leva à formaliação, e à inclusão na contabilidade nacional, das atividades econômicas anteriormente tidas como informais. Assim, o autor conclui que dados agregados não são de todo úteis para se avaliar o desempenho da economia social. São precisos microdados sobre a qualidade de vida em nível individual, coletados diretamente em relação à população mais pobre.

Uma outra concepção de pobreza é definida por Amartya Sen. O autor associa a característica de privação, própria à carência, não apenas à disponibilidade de bens econômicos, mas também à capacitação dos indivíduos em desfrutar dos benefícios desses bens. Assim, aspectos como más condições de saúde ou exclusão política-social podem ter efeitos tão negativos sobre o bem-estar individual como a escassez de bens materiais para a subsistência. Sen também introduz o conceito de “pobreza relativa”, a qual é diretamente influenciada pelas instituições e os costumes de cada sociedade, e se diferencia da noção tradicional de linha de pobreza rígida e cientificamente construída para a análise. Deaton, por outro lado, aponta que o principal problema dos países subsesenvolvidos é com a “pobreza absoluta”, definida pelas condições básicas de nutrição e de saúde desejáveis para a população, enquanto que a pobreza relativa esta mais associada com as características sócio-econômicas dos países mais ricos.

Outro problema se dá na comparação internacional dos índices de pobreza. Os bens de subsistência, fundamentais para a análise da linha de subsistência para a pobreza absoluta, não podem ter seus dados quantitativos coletados em uma única medida monetária, e simplesmente converter seus preços em uma moeda-padrão internacional pela taxa de câmbio de mercado pode conter o viés de que o câmbio é determinado pela importação e exportação de bens, muito mais do que pela absorção doméstica de serviços básicos (mais relevantes para a população carente). E mesmo ponderações pela Paridade do Poder de Compra (PPP) podem não estar devidamente corretas, pela variedade de preços relativos intra-nacionais, e pela sua instabilidade ao longo do tempo.

Por isso, para a análise quantitativa dos indicadores sociais, devemos lançar mão de diversos índices, cada qual voltado para um problema específico, e incluindo suas vantagens e limitações específicas. Uma boa lista de indicadores de pobreza e desigualdade pode ser encontrada na obra de Hoffmann (renda por quantis da população, L de Theil, índice de Gini, indice de Wolfston, IDH de Sen e o índice de pobreza de Foster, Greer e Thornbecke). Já os fundamentos matemáticos para a construção de indicadores de desenvolvimento humano são muito bem descritos por Chakravarty (2003).

segunda-feira, novembro 05, 2007

Escândalo do Leite - Charges

Um momento de humor negro sobre a adição de soda cáustica no leite vendido nos supermercados de Minas Gerais. Felizmente, eu sempre compro o leite mais barato que tiver disponível, e nunca é o da Parmalat (que teve os maiores problemas).













sábado, novembro 03, 2007

Feriado em Belo Horizonte

Ontem, no feriado de 2 de Novembro (Finados), resolvi esquivar-me dos estudos (e também desenferrujar as pernas e o fôlego) e dar uma boa caminhada pela parte mais turística e histórica de Belo Horizonte. Peguei o ônibus na Cidade Nova, bairro onde moro, e desci na Praça da Liberdade, lugar de prédios históricos e clássicos da cidade e do governo estadual (uma versão de primeiro mundo da Praça da Matriz, de Porto Alegre, isto é, sem a sujeira e as pichações).

Desci caminhando pela avenida Cristóvão Colombo até a Savassi, um tradicional bairro comercial composto quase que exclusivamente por lojas, bares e edifícios de escritórios de todas as épocas (desdes os "caixotes" dos anos sessenta até os blocos de granito e vidro contemporâneos). À noite, a Savassi é o ponto principal da boemia belorizontina, com um trânsito bizarro, que só se vê em Porto Alegre na frente de colégios na hora da saída dos alunos. Mas, num dia de feriado, de manhã, estava um lugar bastante quieto e pacífico. Caminhei pela avenida Getúlio Vargas até a Afonso Pena, percorrendo todo o bairro dos Funcionários, um bairro residencial de classe alta.

Pela Avenida Afonso Pena, segui até o bairro das Mangabeiras e a Praça do Papa, onde eu já tinha caminhado no final do semestre passado. Porém, ontem, a paisagem estava muito diferente. Tanto a terra presente nos terrenos e nas calçadas, como as montanhas da Serra do Curral, o paradoxal final da civilização urbana, não estavam da cor vermelho-sangue, como em julho. A terra daqui estava mais marrom, mais parecida com a que eu conhecia em outros lugares. Provavelmente, isso deve-se ao fim da seca que assolou o centro do Brasil durante o inverno, e ressecou até o relevo local.

Do alto da Praça do Papa, pude enfim avistar o belo horizonte que denomina à cidade. O mirante oficial, ao lado do Palácio das Mangabeiras é muito ruim, tanto por causa das árvores que o circundam, e atrapalham a visão, como por causa da aglomeração de vendedores de água de coco (e seus insuportáveis radinhos tocando música brega). Mas, a visão da cidade pelo alto da Praça do Papa é praticamente uma obra de arte, uma pintura paisagística viva, um cartão postal em 3D.

Caminhando por trás da praça, no pé da Serra do Curral, em direção ao Parque das Mangabeiras, pude contemplar a realidade do bairro em que andava. As casas, seja pelo tamanho, seja pelo design, só seriam vistas em Porto Alegre dentro de condomínios fechados. Se não fosse pelas grades e pelas câmeras de segurança abundantes, poderia-se sentir em uma cidade do Hemisfério Norte, com ruas calmas, tranqüilas e arborizadas, crianças andando de bicicleta livremente, praticamente sem trânsito, a não ser por um ou outro carro de luxo.

Entrei no Parque das Mangabeiras e caminhei bastante pelas suas trilhas-estradas de pedra. O parque é bastante curioso, por dentro das trilhas que seguem por paisagens alternantes de floresta e de cerrado, existem inúmeros mirantes (para avistar a cidade ao longe) e quiosques desocupados que as famílias visitantes aproveitam para fazer piqueniques. Ao longo da trilha, vi algumas aves típicas, como, por exemplo, um galo preto, de rabo como de faisão (não sei o nome). Contudo, esperava encontrar os micos do Jardim Botânico, ou mesmo a solitária capivara que vi pastando ao lado da lagoa da Pampulha. Mas o contato com a natureza, por si só, já valeu a pena por toda a caminhada, e a saudade dos tempos de trekking já batia forte demais. Gosto das sobras das árvores, dos ruídos dos pássaros, da visão do ambiente natural e do cheiro de chá provocado pelo contato do Sol com as folhas caídas das árvores mais do que qualquer outra coisa.

Como eu não tinha levado nada para beber no caminho, a desidratação me pegou com força quando estava na metade da trilha, e tive que voltar. Antes de pegar o ônibus para o Centro, bebi meio litro de água de côco como se fosse um único gole.

Outro dia, venho mais preparado para dar conta de todo o trajeto do Parque das Mangabeiras.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Antigo "About Me" do Orkut

Agora, com o blog, o meu antigo "abuot me" do Orkut já não faz mais sentido.

Então fica aqui, na memória:

-Mestrando em Economia na UFMG;
-Na graduação (UFRGS), fui bolsista e colaborador voluntário de movimento estudantil (DAECA);
-Eu gostei da minha graduação;
-Movido à cerveja Polar, pastel da República e xis-lombo no Cavanhas e no Pinguim (Lima e Silva);
-Odeio tudo o q toca na Radio Jovem-Pan e Eldorado;
-Não sou chegado a radicalismos políticos, para a direita ou para esquerda;
-Economistas favoritos: John Maynard Keynes, Amartya Sen, Jefrey Sachs, Paul Krugman, Celso Furtado.
-Filmes trash rulez!!!
-Curto literatura antiga, e ainda me meto a crítico (ver blog);
-Trabalhei no Núcleo de Análise e Pesquisa Econômica, um pequeno escritório na FCE onde mais de 20 bolsistas lutam por uma vaga na mesa ou em algum computador;
-Áreas de interesse: Economia Social, Economia da Educação, Economia e Meio Ambiente, Finanças Públicas, Sistemas Econômicos Comparados, Metodologia da Economia, Economia Brasileira, História do Pensamento Econômico;
-Guitarrista amador, muito amador;
-Durante muito tempo da minha vida, Metallica, Ramones e Green Day eram meus grandes vícios, mas hoje já escuto mais Black Sabbath, Angra e Kiss;
-Agora, meu negócio é Nightwish, Chuck Berry e Black Sabbath;
-Realmente, eu odeio boys e pattys, e não me faltam motivos para isso;
-Sou um tanto tímido com pessoas desconhecidas;
-Mas com meus amigos, gosto de fazer brincadeiras que nem sempre são humorísticamente reconhecidas;
-Meu herói de infância era o Diesel (Kevin Nash);
-O melhor disco de todos os tempos é o "Heaven and Hell", do Black Sabbath, mas o "No More Tears" do Ozzy não fica muito atrás;
-Já gostei de rum e de vodka, mas parei;
-Ainda em busca da melhor cerveja do mundo: prefiro cerveja Polar, Carlsberg (Dinamarca) e Miller (EUA).
-Nunca fumei maconha nem cigarro;
-Mas de charutos eu gosto, principalmente cubanos;
-Phillies Blunt folhado a chocolate ou mel já serve;
-Odeio fundamentalismo, seja religioso, político ou ideológico;
-E econômico, odeio muito mais;
-Fui monitor de Economia Brasileira Contemporânea, e já dei umas 10 aulas.
-God knows I've done my best.
-Não surfo, não faço musculação, não suporto música dance, não uso roupas de grife. E vivo muito bem.
-Não adianta ter doutorado em universidade famosa dos EUA: um professor tem q ter didática!
-Não torço para a Seleção Brasileira principal.

-SIM, SOU LOUCO, E DAÍ?????
-Mas acho q algum dia eu já fui um cara normal.
-E, se teve alguém que teve saco de ler essas bobagens até aqui, fico feliz de não estar sozinho nessa!

Outra hora eu comento um pouco as raízes históricas de cada frase.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Uma Carona Inusitada

Neste último sábado pela manhã, tive uma boa experiência a respeito dos baixos índices de violência urbana em Belo Horizonte, e como isso condiciona o comportamento das pessoas.

Estava eu em uma parada de ônibus perto de casa, no bairro Cidade Nova, esperando o ônibus para ir ao Centro. Sem mais nem menos, de repente para um carro na parada, e um senhor aparentando ter mais de setenta anos de idade, que dirigia o carro, me diz que está perdido (não mora na cidade), e me pergunta se eu vou para o Centro. Eu respondo afirmamente, e ele me diz, de modo muito natural: "Então sobe no carro aí e me ensina como se chega lá!". Descrevi para o senho o exato trajeto do ônibus, e chegamos rápido ao Centro. No caminho, ele me contou alegremente toda a história de seus filhos e netos, e confesso que foi umacarona muito agradável.

Mas, para mim, um portoalegrense acostumado a desconfiar de assaltantes até dentro dos ônibus e lotações, achei muito estranho alguém oferecer carona a um estranho parado em um ponto de ônibus.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Enfrentar a Desigualdade ou a Pobreza? – Debate entre Feldstein, Milanovic e Sen

Martin Feldstein, da Universidade de Harvard, em seu artigo “Income Inequality and Poverty” (1998), argumenta que, ao contrário do que muitos economistas e intelectuais apresentam, a desigualdade não é um problema social, ao contrário da pobreza. Segundo o autor, o critério econômico para definir alterações de bem-estar social e o impacto social de políticas consiste no conceito de ótimo de Pareto, isto é, a situação de que, se uma mudança no equilíbrio social pode melhorar a situação de um indivíduo ou um grupo de indivíduos, sem piorar a situação dos demais, então essa mudança é benéfica. Assim, a desigualdade pode ser Pareto-eficiente, se a renda de um determinado grupo de indivíduos aumentar sem que a renda de outros indivíduos diminua. Por isso, o único motivo pelo qual as pessoas (economistas, intelectuais, e outras) podem se incomodar com a desigualdade na sociedade, é por que elas têm inveja do aumento de bem-estar alheio. E esse sentimento de inveja, para o autor, é moralmente condenável, principalmente porque nos últimos anos as grandes riquezas pessoais tenderam a aumentar por fatores mercadológicos, como o aumento de número de horas trabalhadas e aumento da produtividade do trabalho qualificado. Por isso, a inveja não pode ser um critério racional para a definição de políticas econômicas.

Sobre as causas da pobreza, vistas por Feldstein como o maior problema social, o autor apresenta uma visão estritamente conservadora. Para o autor, a pobreza pode ter três causas. Em primeiro lugar, o desemprego estrutural, que seria provocado por uma legislação social que desestimularia a procura de novos empregos pelos desempregados. Em segundo lugar, a falta de habilidades pessoais, provocada pela má escolaridade (causada por falta de competição entre as instituições públicas de ensino), falta de treinamento no emprego (causada pelos altos custos sociais de contratação, que desestimula as emprsas a oferecer programas de treinamento), ou simplesmente falta de aptidão individual ao trabalho, provocada por fatores congênitos ou decorrentes de determinados estilos de vida (como o uso de álcool e drogas). A última causa da pobreza, para o autor, decorre das escolhas individuais dos indivíduos, isto é, de consumir mais lazer do que o necessário para melhorar a sua condição, o que pode ser estimulado por políticas de transferência de renda.

Ou seja, na visão conservadora de economia e sociedade de Feldstein, a pobreza é um fenômeno totalmente exógeno ao sistema econômico. Existe pobreza devido aos incentivos provocados por políticas públicas e devido às preferências, características e escolhas de determinados indivíduos. E só. O autor adverte que a pobreza pode ter a conseqüência de criar pressões políticas para a adoção de políticas monetárias expansionistas, o que, por gerar inflação no longo prazo, em troca de um aumento temporário na demanda por mão-de-obra, pode prejudicar a eficiência da economia como um todo.

O teor conservador do artigo de Feldstein gerou muitas críticas. Uma delas, de Branko Milanovic (2003) “Why We All Do Care about Inequality but Are Loath to Admit It”, defende a redução da desigualdade por motivos de estabilidade social e política e de correção de falhas de mercado, ja que a concentração de renda poderia reduzir o número de potenciais investidores em uma economia.

Por outro lado, em resposta ao caráter moralista da crítica de Feldstein à “Economia da Inveja”, Milanovic argumenta que as questões éticas e morais não são fenômenos passíveis de serem estudados pela economia. O que interessa, para o autor, é estudar qual é a racionalidade dos agentes econômicos em serem invejosos. Para o autor, e explicado no artigo original com referências à Teoria dos Jogos, os agentes econômicos podem apresentar um comportamento visto como “invejoso” em situações em que há alguma distribuição de riqueza porque interpretam a riqueza recbida não apenas como um meio de troca, mas sim como o resultado da avaliação social ao seu comportamento. Por isso, quando um agente recebe muito menos do que os seus semelhantes, seu bem-estar dimunui porque ele se sente injustiçado, mesmo que sua renda não tenha diminuído em termos absolutos. Por isso, o que parece “inveja”, para algumas pessoas, é, na verdade, “justiça” para outras.

Sobre a preocupação social com a desigualdade, há uma convergência entre a visão de Milanovic e a de Sen, de que toda teoria, ou mesmo comportamento, normativa em relação à sociedade tem algum fundamento no princípio da igualdade. Mesmo entre pensadores de visão mais liberal-utilitarista, que rejeitam a igualdade econômica como um princípio a ser seguido politicamente, seguem uma crença numa igualdade de direitos entre os inivíduos. Para Sen, alguma forma de igualdade está sempre presente nos argumentos sociais pela simples questão da plausibilidade das concepções pessoais aos ouvidos de seus semelhantes, isto é, é como uma forma de se buscar mostrar a imparcialidade entre indivíduos. Para Milanovic, por outro lado, a preocupação com a igualdade é uma conseqüência direta do pensamento humanista Iluminista, que assume a igualdade de direitos entre os cidadãos. Por isso, toda e qualquer desigualdade na sociedade, mesmo a econômica, tende a ser racionalmente discutida e questionada entre os indivíduos, como uma forma de escape moral ao próprio enriquecimento pessoal.

PS. Li hoje que Martin Feldstein está muito bem cotado para substituir Ben Bernanke na presidência do FED, no ano que vem. Isso dá o que pensar...

domingo, outubro 21, 2007

Metodologia da Economia em John Stuart Mill

A obra "Da Definição de Economia Política e do Método de Investigação Próprio a Ela" (1836), do inglês John Stuart Mill é considerada o primeiro texto que busca explicar a natureza e o método da Economia como uma ciência separada, isto é, independente da então chamada filosofia moral (que incluía, além da Economia Política, o Direito e a Ciência Política). Nesse texto, um grande clássico da história do pensamento econômico, o autor busca definir a problemática fundamental da Economia Política sendo influenciado tanto pelo método histórico-indutivo de Adam Smith, como pelo método dedutivo de David Ricardo, isto é, Mill formula a sua própria hipótese para a metodologia da Economia utilizando elementos, aparentemente antagônicos, desses dois autores, mas sem pender para nenhum lado.

Em princípio, Mill procura definir o que é Economia Política. Para isso, o autor procura, antes de dar a sua definição, explicar o que não é Economia Política:

Em primeiro lugar, Economia Política não é o estudo de como que uma determinada nação fica rica. Essa associação representa uma confusão entre Ciência e Arte, presente em muitos pensamentos. Ciência é definida pelo autor como um conjunto de relações lógicas entre fenômenos observados e suas leis gerais, ao passo que Arte é definida pelo mesmo como um conjunto de regras formais para a conduta, cisando produzir algum fim. Por isso, o estudo sobre o enriquecimento das nações é uma arte política, de fato, derivada da Economia Política, mas que não a define por si só.

Em segundo lugar, Economia Política não é o estudo das leis que regulam a produção, distribuição e consumo da riqueza. Para o autor, apesar dessa idéia tratar verdadeiramente a Economia como Ciência, e não como Arte, o conceito de riqueza ali presente é muito vago. Mill, sob a ótica da Economia Política Clássica, conceitua a riqueza como um conjunto de bens úteis e agradáveis a humanidade que são produzidos, ou obtidos em geral, pelo trabalho, ou por algum outro meio de esforço. Por isso, um estudo completo sobre todas as forças que influenciam a produção de riqueza pela humanidade, devido à abrangência do próprio conceito de riqueza, incluiria todas as ciências físicas existentes. E, como para o autor uma ciência se caracteriza pela limitação de seu objeto de estudo, esse problema acabaria por anular a Economia como uma ciência independente das ciências físicas.

Para formular seu próprio conceito de Economia Política, Mill define o seu objeto de estudo como uma ciência moral, ou psicológica, e isso a afasta das ciências físicas. Isto é, a economia estuda o comportamento humano, as relações entre os fenômenos econômicos e as leis gerais da mente humana. Por isso, para um melhor estudo, deve-se considerar todas as leis físicas (chamadas pelo autor de "leis da matéria" que influenciam a produção como dadas. Além disso, o estudo da economia deve assumir a existência de um corpo social, isto é, de que o homem vive e age em união com homens semelhantes, em busca de objetivos comuns. Ou seja, a Economia Política é um ramo de um grande objeto de estudo que o autor define como "Economia Social", que procura estabelecer as leis das relações entre a conduta individual dirigida pela mente humana com as necessidades e as orientações do estado de sociedade ao qual o homem naturalmente se agrega. Mais especificamente, a Economia Política é, no sentido de pode ser delimitada como, o ramo da Economia Social (cujo conceito pode ser associado ao que hoje consideramos como Ciência Social) que estuda os fenômenos referentes à humanidade associados especificamente com a idéia de acumulação de riqueza.

Explicando melhor, Mill define como Economia Política o estudo das leis que governam o comportamento humano decorrente das hipóteses observadas de que o homem tem necessidades, e age de modo a procurar satisfazê-las, e que, para um dado nível de esforço, obter mais riqueza é sempre preferível a menos. Ou seja, nessa definição, é visível a influência ao mesmo tempo do indutivismo de Smith e do dedutivismo de Ricardo. Pois, a Economia Política estuda as leis que decorrem, isto é, são deduzidas, a partir de hipóteses dadas. Contudo, as hipóteses tomadas como verdadeiras para o autor não são abstrações filosóficas sobre o comportamento humano (tal como o conceito de racionalidade na posterior Economia Positiva Neoclássica), mas sim são verdades observadas, de que as pessoas têm necessidades e que gostam de riqueza como recompensa ao seu esforço, obtidas indutivamente.

Pela delimitação do objeto de estudo da Economia Política, Mill argumenta que as leis gerais obtidas pelo desenvolvimento dessa ciência se restringem a essa delimitação, isto é, dos fatos humanos relacionados à obtenção de riqueza, entendida como qualquer objeto que interessa ao homem e que é obtido em custa de algum esforço. Nas palvras do autor (1974, pg. 302), a Economia Política é "a ciência que traça as leis daqueles fenômenos da sociedade que se originam das operações combinadas da humanidade para a produção da riqueza, na medida em que aqueles fenômenos não sejam modificados pela procura de qualquer outro objeto".

O autor explica que certamente a procura pela riquezanão é o único fator que influencia o comportamento humano (e inclusive chama de "ridículos" os economistas que assim pensam). Para o autor, as ciências morais, dentro da qual existe a chamada Economia Social da qual a Economia Política é um ramo, têm a característica de suas leis agirem de forma combinada na realidade. Isto é, apesar de ser recomendável que cada ciência moral aborde uma possível base de influência no comportamento humano, é importante ter em mente que todas essas bases agem em conjunto, nos fenômenos reais. Tal efeito tem como conseqüência a impossibilidade de se realizar experimentos científicos para testar a validade das leis estudadas. Por isso, em qualquer conclusão tomada sob a ótica das ciências morais, sempre haverá um conceito de incerteza sobre as explicações e as previsões. Incerteza pelo fato de que o cientista nunca poderá estar certo de quais são todas as forças presentes no seu objeto de estudo, quais dessas forças são concorrentes ou agregativas, e quais são as predominantes para cada situação. Isso faz com que as causas particulares a cada situação estudada tenham papel fundamental como força de ação, e seu papel isolado pode inclusive neutralizar as causas gerais.

Por isso, para o autor, um cientista moral, tal como um economista político, nunca será algo como um profeta, pois nunca terá a informação plena de todas as causas particulares que complementam as cuasas gerais conhecidas em cada situação estudada, e qualquer previsão tomada sob essa ótica será sempre a observação de tendências, obtidas sob uma incerteza imensurável e natural ao conhecimento humano.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Fim da Seca

Ontem à noite, depois de quase 6 meses de seca, finalmente choveu em Belo Horizonte. Nos dois últimos dias, fez muito calor aqui, quase comparável ao que faz em Porto Alegre no verão. Felizmente, ontem tudo acabou numa boa tempestade, com direito a ventania, raios e relâmpagos.

Meus olhos, nariz e garganta agradecem.

quinta-feira, outubro 18, 2007

O Mapa - Mário Quintana

Momento de saudades, olhando o mapa de Porto Alegre no Google Maps.

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

segunda-feira, outubro 15, 2007

ANPEC - Um Ano Depois

AVISO: este post é nostálgico.

Hoje está fazendo praticamente um ano de quando eu realizei o exame Anpec, de qualificação nacional para pós-graduação em Economia. Ainda me lembro, como se fosse na semana passada, os fatos mais marcantes desses dois dias de provas que podem decidir uma vida inteira:

- As duas noites mal-dormidas, tremendo, suando frio e com o coração acelerado, pensando nas provas do dia seguinte e no resto da vida após as provas;

- Ir de carro até a Puc-RS, e encontrar os amigos no estacionamento, próximo ao prédio da Economia, dando a última revisada e decorando os últimos macetes.

- O próprio prédio da Economia e Administração da Puc-RS, uma verdadeira pérola de design e arquitetura. Até comentei com os colegas: "se não der certo nas provas, até que vai ser agradável estudar aqui".

- As duas salas lotadas de candidatos, sendo que muitos faltaram, e muitos outros eram totais desconhecidos, que marcavam todas as questões em cerca de meia hora de prova.

- A prova de macroeconomia estava bastante diferente das anteriores, e isso provocou pâncico em muita gente. E eu errei uma questão de ponto cheio por bobagem e marquei uma questão inteira errada na folha óptica. "Do Rio Grande do Sul, não saio mais" foi o que eu pensei quando saí da sala. O resto da turma estava muito confiante. "25% de cominho andado até o Rio de Janeiro" era o pensamento geral.

- A prova de estatística estava mais fácil do que no ano anterior. Meu conhecimento da matéria era relativamente baixo, mas as questões eram muito parecidas das provas anteriores.

- Almocei com o Éverton e o Risco em um restaurante que não me lembro onde fica, mas comi lombinho de porco com molho de abacaxi em calda (!).

- A prova de economia brasileira estava muito detalhista. Achei muito difícil, mesmo tendo trabalhado como pesquisador nessa área durante dois anos e meio. Pelo menos, na redação, me redimi, e escrevi quatro páginas mais uma linha sobre os planos de estabilização econômica da década de 80 e 90, com ênfase na visão de inflação inercial que se tinha na época e o "Efeito Tanzi às Avessas" do Fábio Giambiagi, que relacionava a indexação dos contratos co o déficit público, visto por esse autor como a verdadeira causa da inflação no país.

- Cheguei em casa exausto. Tomei um chazinho lendo a Zero Hora, fui pro banho e... estudei até as duas da madrugada.

- No dia seguinte, veio o maior choque. A prova de matemática mudou quase que completamente em relação aos anos anteriores, e fiquei desesperado. Nada de integrais ou limites simples, e pouquíssima álgebra linear. Achei que não passaria nem na Puc-RS.

- Fiz toda a prova de inglês (acho que a USP exigia). Fui rápido, para poder revisar micro no intervalo de almoço.

- Almocei sozinho em um restaurante a quilo perto do prédio do Direito. Encontrei alguns conhecidos do colégio pelo pátio do campus da Puc-RS. E como tinha mulher bonita naquele campus! É a única coisa que me dá saudade daqueles dois dias.

- Revisei microeconomia com o Thomas (USP), o Diego (PUC-RJ) e o Tarso (PUC-RJ). O nível deles estava bem acima do meu, mas não me desesperei. Naquele momento, o que eu mais queria era ficar na UFGRS, mesmo sem bolsa.

- Fiz a prova de microeconomia relativamente tranqüilo. A prova parecia fácil (mas tinha vários pega-ratões que tiraram nota de muita gente). Mas senti que tinha ido bem melhor do que nas outras.

- Saí da prova e acendi o "charuto da vitória" com o Augusto Polegar (Desenvolvimento-UFRGS), um Danemann. Enquanto os mais aplicados queriam revisar as provas, o que eu mais queria era encher a cara.

- Deixei o Éverton e o Risco em sua república, levei o carro para casa e fui para a Cidade Baixa afogar as mágoas. Primeiro, encontrei meus colegas anpecanos no bar do Antônio. Bebemos umas duas horas lá. Depois, fomos para o bar do Fabiano. Por fim, fomos comer X e continuar a cervejada no Pingüim. Conforme bebia, sentia a angústia cada vez mais forte, e os meus amigos perceberam isso. Cheguei em casa e tomei um copo bem cheio de Jack Daniel's para conseguir descansar. Meu pai só foi notar a mudança do nível da sua garrafa em julho desse ano, já que ele não bebe destilados.

- No dia seguinte, dormi bastante e fui para o IEPE me inscrever no programa de mestrado em Desenvolvimento Rural, bastante desiludido comigo mesmo. Para me redimir me dei um CD de presente, acho que do Chuck Berry, na Stoned Records (na Marechal Floriano). Na FCE, veio o Fabiano me contar do roubo do computador do DAECA, que virou um caso famoso por algum tempo.

- Tirei um mês de férias, procurando me recompor fisicamente e psicologicamente da Anpec, e me inscrevi em concursos públicos.

- No dia 18 de Novembro, veio a boa nova. Fui selecionado para a Puc-RS, para a UFRJ e para o Cedeplar-UFMG. Fui rindo sozinho cada vez mais alto a cada e-mail que lia desses centros. Fiquei um tanto histérico nessa hora, e mandei scraps de conteúdo bastante agressivo no Orkut de meus amigos (e inclusive para o professor Sabino, da faculdade). Todos me cumprimentaram. Depois, viajei para o Rio e confirmei o ingresso, com bolsa de estudos, no Cedeplar. Me mudei para Belo Horizonte no dia 13 de janeiro, tendo comigo nada mais do que uma mala de roupas, outra de livros, minha mochila, minha pasta do DAECA, e uma reserva num hotel barato no centro da cidade.

Em relação à prova da Anpec, em primeiro lugar acho muito positiva a organização em nível nacional dos centros de pós-graduação em economia de disponibilizar as vagas para ingresso por meio de uma prova unificada, fechando espaços para quaisquer possíveis favorecimentos aleatórios e panelinhas, como acontece em outras áreas acadêmicas. Se não fosse por essa prova, eu certamente não teria saído de Porto Alegre.

Contudo, acho que a Anpec é muito mais difícil do que deveria ser. As provas têm ao todo quinze questões cada, e raramente as médias superam dois pontos. Isso favorece os centros de maior disputa em nível nacional, como a PUC-RJ e a FGV-RJ, mas, para os demais, cria um grande bolo de candidatos praticamente empatados em suas pontuações, o que torna a seleção muito complicada e até mesmo aleatória, já que um ítem de uma questão acertado em uma prova pode decidir uma bolsa de estudos, ou mesmo uma vaga. Além disso, eu sinceramente acho (e isso vale também para o Vestibular) que avaliar toda a competência de um candidato em dois dias de provas é muito problemático. Mesmo que isso possa reduzir a uniformidade dos critérios de admissão, a análise do currículo dos candidatos é um fator importante, já que cobre fatores de toda a sua vida profissional e acadêmica e não pode ser resumida em questões de provas.

Por fim, não concordo com a presença de questões do tipo pega-ratão nesse tipo de prova. Como na Anpec, um ítem errado elimina os pontos de um ítem respondido erronemanente, questões que induzem o candidato ao erro acabam prejudicando quem estudou mais e quer fazer o maior número de pontos possível para passar nos centros mais difíceis. Por isso, erros de atenção viesam a dificuldade da prova para esses candidatos, enquanto aqueles que estudaram menos tendem a ser mais avessos ao risco e preferir concentrar-se apenas nas questões que realmente dominam.

Por fim, desejo boa sorte a todos o que estão passando esse ano pelo que eu passei no ano passado. E que o esforço de cada um seja devidamente recompensado!

quinta-feira, outubro 04, 2007

Novos Marcadores

Para fins de criatividade, decidi mudar o nome de alguns marcadores do blog, e criar alguns novos. Nessas mudanças, eu pretendo homenagear algumas músicas e bandas que eu gosto.

Aí vão as novidades:

Do You Remember Rock and Roll Radio? (música dos Ramones) = antigo marcador "Rock and Roll"

Fun Fun Fun (música dos Beach Boys) = antigo marcador "humor"

In My Life (música dos Beatles) = antigo marcador "minha vida"

Maluco Beleza (música do Raul Seixas) = antigo marcador "divagações"

Master of Reality (disco do Black Sabbath) = novo marcador, sobre o meu mestrado

The Memory Remains (música do Metallica) = novo marcador, seção nostalgia

Wherever I May Roam (música do Metallica) = antigo marcador "viagens"

Ainda pretendo fazer outras modificações.

Tipos Sociológicos entre Estudantes de Economia

Esse é um post de cunho humorístico/sarcástico, inspirado em um comentário do professor Jorge Araújo (UFRGS) sobre a heterogeneidade de interesses entre os estudantes de economia.

Tomando como amostra os alunos de uma turma de um semestre de qualquer curso de graduação em Economia no Brasil, encontramos os seguintes tipos de alunos:

QUASE-HISTORIADOR: aluno que gosta de história, ou de ciências humanas em geral, e escolheu fazer vestibular para economia porque essa seria a ciência social mais propícia ao sucesso profissional, ou o curso dessa área ideologicamente mais eclético. A maioria dos quase-historiadores tende a se interessar pela heterodoxia (ou pela nova economia institucional), e podem se tornar pesquisadores em história econômica, HPE, economia política, desenvolvimento sócio-econômico e economia brasileira. Sua tendência após concluir o curso é de procurar pós-graduação, e seguir vida acadêmica. Por parecerem intelectualódies, em média, os quase-historiadores podem ser considerados "chatos" por parte de seus colegas, particularmente pelos "jovens empreendedores".

POLÍTICO: aluno que tem interesse em seguir carreira nos meios políticos, e, na inexistência de cursos de graduação em ciência política ou administração pública na região onde vive, presta vestibular para economia. Suas áreas de interesse são economia do setor público, direito aplicado à economia e políticas macroeconômicas (a "macroeconomia hidráulica" segundo o Jorge Araújo, de causalidade qualitativa entre políticas, o nível de produto e o nível de preços de uma economia). Alguns políticos abandonam o curso para ingressar em algum "movimento". Após o término do curso, os políticos formados tentam, além de inserir-se em seu meio, realizar concursos públicos.

ORTODOXO ESTRITO: aluno que já tem alguma noção do conteúdo básico de um curso de economia, e espera obter uma boa base de conteúdo quantitativo (matemática, econometria) e teórico (micro e macroeconomia), de acordo com o currículo-padrão de cursos de economia em nível internacional. Contudo, como a grande maior parte dos cursos de graduação em ciências econômicas do Brasil segue uma linha eclética ou heterodoxa, o aluno ortodoxo estrito pode desenvolver o mal-hábito de ficar falando mal de seu curso durante toda a sua graduação, e derreter-se em arrependimentos por não ter escolhido um curso "mais sério" (de ciências exatas), como matemática ou engenharia. Alguns ortodoxos estritos são mais radicais, ignorando inclusive a importância das cadeiras de macroeconomia para seu conhecimento. Alguns ortodoxos estritos são "fraudes acadêmicas", isto é, falam aos seus colegas que são muito bons em matemática, que deveriam estar na FGV ou no IMPA, etc, mas seu desempenho nas provas não corresponde ao seu ego. Por outro lado, os ortodoxos estritos que são realmente bons conseguem obter excelentes resultados no exame Anpec, e cursar pós-graduação em centros mais de acordo com suas preferências.

"JOVEM EMPREENDEDOR": aluno que presta vestibular para economia pensando em seguir um curso prático, indutivo, que o prepare exclusivamente para o mercado profissional, ou como ele mesmo diz, "para ganhar dinheiro". Contudo, como os cursos de economia no Brasil (e, segundo alguns, isso vale em nível internacional) seguem uma linha predominantemente acadêmica e teórica, e pouco voltados para a área de economia empresarial e financeira, tal aluno sente-se decepcionado logo no primeiro semestre. Algumas versões mais caricaturais de sovens empreendedores chegam a afirmar que qualquer conteúdo teórico na economia é inútil: matemática é "abstrato", micro "não corresponde ao mundo real", macro é "política", história "já passou", economia do setor público "é só para funcionário público", cadeiras de pesquisa "são para acadêmicos", e por aí vai. Talvez seja por isso que boa parte dos alunos desse tipo abandonem o curso antes de terminar, mudando para administração ou ciências contábeis (que são, de fato, cursos mais práticos), ou mesmo para ingressar no mercado profissional mais cedo. Praticamente todos procuram estágios profissionais logo no início do curso, o que pode inclusive reforçar a sua decepção com a ciência econômica em sua aplicação ao mundo profissional real. Outros convertem-se em ortodoxos ou heterodoxos e procuram pós-graduação, podendo obter muito sucesso a partir daí. Outros ainda, por inércia, formam-se em economia sem, de fato, acreditar na importância do curso, apenas para ter algum diploma superior.

PERDIDO NA SELVA: aluno que presta vestibular para economia sem saber muito bem (ou absolutamente nada) do que quer de sua vida, tal como muitos vestibulandos de direito e de administração. Durante o curso, o aluno perdido na selva pode se "encontrar", e se converter em ortodoxo, heterodoxo, ou mesmo em "jovem empreendedor decepcionado", seguindo o rumo de seu novo tipo individual. Ou então, continua perdido em uma selva cada vez mais selvagem. Muitos desses alunos "somem" ao longo de sua graduação, desistindo de sua faculdade, ou migrando para ser trabalhador escravo em algum país desenvolvido. Alguns dos que "somem" "voltam" de forma tão misteriosa como aquela em que sumiram. Outros chegam a se formar, com a impressão de que não aprenderam nada com o seu curso.

PS. 1: todos esses tipos sociais entre cursos de economia são versões caricaturais, descritos em cunho humorístico, e não foram inspirados pessoalmente em ninguém que eu conheça. Os alunos reais tendem a ser combinações lineares de características de todos os grupos. Como nos filmes, "qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência". Se tu te identificares com algum tipo, é problema teu!

PS. 2: acho que faltam alguns tipos minoritários. Se alguém quiser contribuir com novas descrições, pode mandar que eu incluo no post.

PS. 3: pensando em mim mesmo, acho que, ao longo dos meus nove semestres na graduação em Ciências Econômicas na UFRGS fui 60% quase-historiador, 30% jovem empreendedor e 10% político.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Prêmio Nobel de Economia - Fotos

Meus colegas do Cedeplar me enviaram por e-mail um link com fotos de quase todos os vencedores do Prêmio Nobel de Economia.

ATENÇÃO: As imagens são fortes. Os caras são muito feios, e alguns têm sorrisos psicopáticos.

Minha missão agora é procurar colocar apelidos e procurar gêmeos desaparecidos para cada um desses economistas.

Começando:

Robert J. Aumann (2005) = Profeta, Noé, Osama bin Laden, Deus
Edward C. Prescott (2004) = Dedé Santana (careca)
Robert F. Engle III (2003) = Cid Moreira, Branca (professor do cursinho Universitário)
Vernon L. Smith (2002) = Babá (deputado do PSOL)
George A. Akerlof (2001) = Bill Gates
James J. Heckman (2000) = Bocão da Royal, Sílvio Santos
Myron S. Scholes (1997) = Valmor Marchetti
William Vickrey (1996) = Ulisses Guimarães, depois de afogado
John C. Harsanyi - John F. Nash Jr (1994) = Cérebro e Pinky (nessa ordem)
Robert W. Fogel (1993) = Seu Barriga, Gordo (do Gordo e o Magro), um ator de noveleas da Globo que eu não lembor o nome, mas é gordinho, usa os mesmos óculos e tem as mesmas sobrancelhas.
James M. Buchanan Jr (1986) = José Sarney
Kenneth J. Arrow (1972) = Mr. Bean (o mais igual!)

sexta-feira, setembro 21, 2007

O Brasil e a Intelectualidade: Presente e Futuro

Lendo o livro do Renato Tapajós, na semana passada, dei-me conta de como que é difícil encontrar trabalhos de intelectuais brasileiros sobre a sociedade nacional em sua atualidade. Como eu relatei no post sobre o livro, vejo que a grande parte dos intelectuais, não só escritores, mas também jornalistas, sociólogos, historiadores, etc, parecem prender-se em suas memórias de sua juventude e ignorar tudo aquilo que aconteceu no país e no mundo nas últimas duas décadas.

Tendo contato com grande parte da produção intelectual de autores brasileiros sobre questões sociais e políticas do país, o que vemos, geralmente, são relatos carregados de saudosismo sobre as virtudes das atitudes dos jovens rebeldes dos anos sessenta e setenta, particularmente a luta contra o autoritarismo militar e a luta por um projeto de desenvolvimento autônomo, nacionalista e distribuidor de renda. Sobre os anos oitenta e o período democrático após 1988, tudo o que lemos são definições baseadas em conceitos controversos como "década perdida", "juventude alienada", "crise da utopia", ou então radicalismos explícitos como "fim da história" ou "morte do desenvolvimento nacional". Contudo, esses estudos, como dito, são carregados de relatos saudosistas, e não estudos analíticos, sobre a trajetória recente da organização sócio-econômica recente do Brasil.

Como motivos para esse posicionamento dos intelectuais nacionais, de fato, cito o sentimento de salvacionismo e de mergulho utópico que caracterizam o pensamento vanguardista dos anos sessenta e setenta. Naquele período, do final da Segunda Guerra Mundial até o segundo choque do petróleo (1979(, o Brasil e o mundo encontravam-se em um período de prosperidade econômica sem precedentes (os "Anos Dourados"), caracterizado pela constituição econômica do "capitalismo regulado", isto é, economia de mercado com intervenção estatal anti-cíclica e estrutural, e um arranjo de cooperação econômica internacional entre os países capitalistas, que inclusive incentivava mecanismos de investimentos produtivos dos países ricos para os subdesenvolvidos (o Acordo de Bretton-Woods). Todo esse clima de prosperidade abriu caminho para uma geração de pensadores voltados para a compreensão dos fenômenos do desenvolvimento social e econômico, e as problemáticas sociais, como a desigualdade e a persistência da pobreza e da miséria. Tais pensadores se preocuparam em formular ousados projetos de desenvolvimento (tanto em nível econômico como em nível social e político) para o país, em que os trabalhadores tomariam as instituições políticas, a economia seria independente das flutuações externas, a renda seria distribuída na sociedade, e a pobreza se extinguiria, pela constituição de um mercado interno no Brasil que poderia perpetuar o crescimento à la Adam Smith. Além disso, a presença de um regime autoritário no Brasil e de restrições à liberdade de expressão tornavam esses debates ainda mais desfiadores para os intelectuais. Na época, todos os vanguardistas (sejam eles desde os comunistas pró-soviéticos até os liberais-democratas) eram contra o regime, e a opressão intelectual servia apenas para alimentar o sentimento de oposição.

Contudo, os acontecimentos dos anos oitenta abalaram profundamente esse quadro. A crise de endividamento do setor público no início da década acabou com o último ciclo de crescimento da economia brasileira, e desde então, o Brasil praticamente estancou o seu crescimento per-capita. Os intelectuais viram que o crescimento econômico, tal como se dava nas décadas anteriores, não era um fenômeno permantente e inevitável. Muitos economistas abandonaram seus projetos de desenvolvimento nacional para se focar em problemas mais técnicos, como o controle da crise externa e o combate à inflação. A crise do comunismo, visível ao longo dessa década, provocou uma queda da utopia sócio-política em nível mundial. Por fim, a redemocratização construída de "cima para baixo", isto é, costurada pelos próprios políticos aliados do regime militar, retirou o caráter sebastianista que caracterizava os pensamentos intelectuais dos períodos anteriores. Agora, com a liberdade de expressão, qualquer um pode expor seus projetos e idéias sem medo de retaliação oficial, os debates tornam-se cada vez mais comuns e repetitivos. As idéias de desenvolvimento parecem que "perdem a graça", pelas repetições contínuas das mesmas idéias das décadas anteriores.

A partir dos anos noventa, o Brasil passa por grandes transformações nas esferas política, econômica e social. Na política, a redemocratização tem levado partidos políticos cada vez mais à esquerda ao controle do governo federal. Contudo, suas ações são cada vez mais semelhantes, como acontece em todo o mundo democrático, e isso, junto com os comportamentos eticamente inaceitáveis de homens públicos de altos postos hierárquicos, tem suscitado uma apatia política da sociedade brasileira crescente. No plano econômico, o endividamento externo elevado e o desenvolvimento tecnológico dos mercados financeiros internacionais praticamente inibiram a possibilidade de o Estado administrar a economia (via políticas fiscais, cambiais, monetárias e intervenção direta) como fazia nas décadas anteriores. Igualmente, tornou-se consenso que o excesso de proteção à indústria nacional havia criado um déficit tecnológico muito sério para as empresas brasileiras. Portanto, os governos sucessivamente têm optado por políticas de abertura econômica, privatizações e controles fiscais e monetários cada vez mais rígidos, acompanhando as tendências da economia mundial. Contudo, as políticas sociais de resdistribuição de renda vêm se tornando cada vez mais abrangentes, fazendo com que a distribuição de renda e a pobreza na realidade brasileira venham melhorando lentamente. Ou seja, no plano social, o Brasil, mesmo que não piorando mais desde o controle da inflação, ainda tem muitos desafios a cumprir. Ao contrário da miséria rural que caracterizava o país nas décadas anteriores, a bomba da vez está na periferia das grandes cidades, cada vez mais caóticas, violentas, sem instituições definidas, sem condições higiênicas de comportar o volume populacional que comportam, e carregadas por massas humanas sem perspectivas de futuro.

Dado esse panorama, é mesmo muito triste que a intelectualidade brasileria ainda se prenda ao passado, à luta contra o autoritarismo, aos devaneios comunistas e ultra-nacionalistas e ao asco à realidade atual mundial. Tal comportamento vem abrindo caminho para as críticas anti-intelectuais (praticamente neo-positivistas) que vemos nos dias atuais, de que o intelectual seria um ente mentalmente inferior ao do técnico (com pérolas do tipo "quem sabe faz, quem não sabe pensa, escreve e ensina"). Isso está errado, pois ainda há muito sobre o que se pensar nesse país. Técnicos e intelectuais podem e devem coabitar a mesma realidade, e resolver os mesmos problemas de modo complementar.

No plano econômico, o processo de abertura externa e a limitação crescente dos instrumentos de política econômica são inevitáveis, mas o fim dos projetos e das idéias de desenvolvimento sócio-econômico de longo prazo não são. A grande questão atual é o crescimento de longo prazo, isto é, a possibilidade de o Brasil recuperar uma trajetória de crescimento compatível com a dos outros países em desenvolvimento no mundo. Para isso, o papel do Estado será fundamental, mas agora fundamentado nos níveis institucional e regulatório, já que os recursos fiscais e tributários disponíveis são cada vez menores. O desafio presente é pensar qual o modelo de desenvolvimento queremos para o Brasil, pensando sobretudo no longo prazo e em uma economia cada vez mais integrada com a comunidade internacional. Fatores e alternativas são abundantes (educação?, integração regional?, reformas institucionais?, quais?, como?).

No plano político, o desafio é recuperar a credibilidade da democracia brasileira frente aos choques institucionais. A apatia política, mesmo presente em todas as democracias consolidadas, não deve se refletir em convivência e aceitação de comportamentos anti-sociais de políticos, de todos os partidos e ideologias. O risco de um novo governo autoritário aparecer e ser apoiado popularmente para "dar ordem na casa" é remoto, mas não é impossível.

No plano social, o foco é a compreensão da estrutura nacional como um país urbano, em que as desigualdades convivem cada vez mais próximas. Ou seja, desaparece o pensamento tradicional cepalino de dualidade entre o centro industrial rico e a periferia agrária pobre. O Brasil de hoje apresenta riqueza e pobreza habitando conjuntamente os mesmos lugares, centro e periferia, campo e cidade. Por fim, a grande mobilidade social que o país vem apresentando nas últimas décadas, possibilitada sobretudo pelo crescimento do setor de serviços na estrutura econômica nacional, faz com que o modo de pensar e de agir dos grupos sociais urbanos nacionais percam boa parte de seu comportamento econômico (isto é, de ricos e pobres, classes sociais), para comportamentos mais individuais, decorrentes de fatores psicológicos ou mesmo de preferências (isto é, o surgimento e a expansão de tribos urbanas).

O livro de Tapajós é um início promissor de toda uma gama de fatores que compreendem a atual realidade brasileira, e são miseravelmente ignoradas pela maioria dos autores.